Memória Viva traz a história de Flavio Ramos

Panorama publica os textos do projeto Memória Viva, que resgata a trajetória de personalidades de Taquara e região.
O Jornal Panorama publica os textos do projeto Memória Viva. A iniciativa busca resgatar histórias de pessoas da comunidade regional, lembrando suas trajetórias e aspectos marcantes. A cada 15 dias, um novo texto é publicado no site do Panorama. O projeto tem a coordenação de Paulo Wagner de Oliveira, diretor de Cultura de Taquara, responsável por realizar as entrevistas. Neste trabalho, a correção do texto foi das jornalista Magda Rabie, as gravações de vídeo de Jeferson Guedes (Mano) e Zé do Bêlo e a edição de Iana Kleinkauf. O projeto já estava em andamento, com textos anteriormente publicados no Facebook. Os jornalistas Jéssica Ramos e Vinicius Linden, do Panorama, também participam do projeto.

Apresentador de rádio, compositor, cantor, músico, produtor e pesquisador da música sertaneja de raiz. Tem um dos maiores acervos de música sertaneja no Brasil, além de ser um profundo conhecedor e pesquisador dessa vertente cultural e musical. Estamos falando de Flávio Ramos, que em 10 de abril de 2019, completa 60 anos.

Natural do município de Santo Antônio da Patrulha, localidade de Pinheirinhos, chegou em Taquara há 38 anos, em 16 de março de 1980. Filho dos agricultores Wilson Ramos de Oliveira e Delminda Francisca Ramos, tem um irmão mais velho com 77 anos, Plinio Ramos. Viúvo da professora Marta Tania Ramos, que faleceu aos 53 anos, em 2014. Pai de Flávio Eduardo Ramos e, atualmente, casado com Gessi Luz.

A MÚSICA SERTANEJA E O TERNO DE REIS

O gosto pela música sertaneja de raiz começou na sua infância. Filho de agricultores do interior de Pinheirinhos, criou-se ouvindo este gênero musical com o pai, irmãos e primos que se reuniam para cantar ao som da viola. Flávio relembra que, aos 12 anos, acompanhava o pai e a família aos grupos de terno de reis em visita às casas da localidade. As visitas aconteciam de 24 de dezembro a 6 de janeiro. Era um costume de fé, tradição e cultura. Cada grupo de terno representava um dos Reis Magos a procura de informações sobre o nascimento de Jesus, quando dois grupos de ternos de reis se encontravam pelo caminho faziam perguntas cantando sobre o nascimento do Messias.

*Os reis magos são personagens citados somente por Mateus (2,1-12), que visitam o menino Jesus, trazendo para ele presentes: ouro, incenso e mirra. O evangelista não diz quem são e nem o número, mas a tradição retém que eram 3 e deu a eles os nomes de Melquior, Baltasar e Gaspar. Os três reis são chamados de “Magos” não porque fossem espertos na magia, mas porque tinham grande conhecimento da astrologia. De fato, entres os persas, se dizia “Mago” aqueles que os judeus chamavam “escribas”, os gregos “filósofos” e os latinos “sábios”.

Nestes dias de Folia de Reis, o terno era recebido nas casas, onde era oferecido o que se tinha de melhor para comer e beber, o morador que era visitado acompanhava o terno até a casa do vizinho, e assim, sucessivamente.

Flavio recorda que nos Pinheirinhos existia uma localidade conhecida como o “Canto dos Alemães”, onde moravam só descendentes de alemães – Renck, Sparremberger, Vaner, Adams, Kollet, Schmitt, Fleck, Wilbert, Renck, Sibel – eram, mais ou menos, 20 casas. Segundo ele, essas famílias tinham resistências para se “misturar” com os “morenos”, mas a Folia do Terno de Reis, era um momento que todos abriam as portas e recebiam bem os foliões com muita comida típica.

Ele fala com saudades da infância, em cantar em dupla com o primo Juarez, do primeiro cavaquinho e do primeiro violão que ganhou do pai… e também do sonho que acalentava desde cedo, de ser “locutor de rádio”.

A VINDA PARA A CIDADE

Flávio deixou a agricultura e veio morar em Taquara. Isso aconteceu em agosto de 1980. Não tendo experiência na área calçadista – o que ofertava vagas na região naquela época – ficou desempregado por um tempo. Suas economias já estavam terminando, mas lembra, que por ser bom em cálculos, conseguiu emprego na empresa Citral como cobrador. Logo depois, passou para o setor gráfico, vindo a trabalhar com Léo Kroth e Paulo Arbo, que também eram ligados ao segmento artístico. Léo tocava e Paulo Arbo, compositor – com mais de 60 músicas gravadas, poeta, artista plástico e artesão. Flávio adquiriu a empresa, encerrando as atividades a poucos anos atrás.

O sonho de ser apresentador de rádio chegou em 1981, quando ingressou na Rádio Taquara, onde trabalhou, nessa primeira oportunidade, de 1981 a 1991. Tudo começou quando conheceu Ciganinho, que, segundo Flávio, tem o programa de rádio mais antigo ainda em sintonia, desde 1966 (52 anos). Nesta época, eram comuns os programas de rádio ao vivo de meia-hora, e a Rádio Taquara foi pioneira junto com a Rádio Progresso, de Novo Hamburgo, nesta modalidade.

Quando começou na Rádio Taquara, a programação ao vivo da época era das 8h30min às 9h, a apresentação do programa Trio Melodia, com música sertaneja, do qual fazia parte Ciganinho, e depois ele mesmo veio a integrar o programa. Das 9h às 9h30min, acontecia o Gavião dos Pampas, com música gaúcha; das 9h30min às 10h, ocorria o programa do Sapiranga (apelido), um relojoeiro que vinha desta cidade, e, das 10h às 10h30min, seu Natal, de Nova Hartz, apresentava o programa com os filhos, a dupla Valente e Lutador.

Histórias hilárias dos programas ao vivo desta época são contadas por Flávio Ramos, como a dupla que esqueceu os nomes na hora da apresentação, o “Teixeirinha” de Igrejinha que cantava com sotaque arrastado, sem afinação e inteligível, o bêbado que não conseguia falar e teve de ser convencido a vir em outro dia. Histórias que fazem parte do folclore dos programas ao vivo, que tinham uma grande audiência na época.

Depois de 10 anos na Rádio Taquara, Flávio foi convidado por Gilson Ferreira para fazer um programa de música sertaneja de raiz, na Rádio Itaimbé FM, de São Francisco de Paula. Era um programa em horário nobre, aos sábados de manhã, das 10h às 12horas.

Rememora que pegava o ônibus, na rodoviária de Taquara, às sete da manhã para São Francisco de Paula, e levava 56 discos de vinil para rodar na programação, motivo que o fez providenciar a aquisição de duas sacolas apropriadas para levar os vinis. Na época, o apresentador fazia tudo dentro do estúdio, pois a tecnologia era muito diferente dos dias atuais. “O programa teve uma grande aceitação, inicialmente era das 10h às 12h, depois das 10h às 13h, e, finalmente, fechávamos em cinco horas de programação, das 10h as 15h, com uma intensa lista de patrocinadores”, destaca Ramos.

A ESPOSA MARTA E SEU LEGADO NA EDUCAÇÃO

A esposa de Flávio, senhora Marta Tânia Ramos, faleceu em 2014. Foram doze anos de sofrimento para ela e toda a família, um período muito triste. Ela era professora, diretora de escola da rede municipal de Taquara, muito aplicada e reconhecida por seu trabalho. Foi diretora da Escola Municipal Idalino Pedro da Silva, de Parobé, até 1981. Na época, Parobé pertencia a Taquara (emancipou-se em 1982). Foi, posteriormente, diretora da EMEF Rosa Elsa Mertins, no bairro Santa Rosa, em Taquara. Em seu mandato foi adquirido o terreno e construído o anexo do prédio novo da escola.

Flávio lembra da luta da esposa, da comunidade do Santa Rosa e do CPM, para concretizar o projeto. Recorda que a esposa Marta com o CPM da escola, foi até o falecido ex-prefeito Nereu Wilhelms (prefeito de 1989 a 1992), para ver a possibilidade de cooperação da Prefeitura. O prefeito disse que ajudaria adquirindo o terreno ou construindo a escola, já que as duas coisas não seria possível no momento, assim a comunidade deveria escolher uma das demandas para, junto com o CPM e a direção, tocarem o projeto.

“Foi um momento bonito, vendemos mais de mil meio frangos, além de doações da comunidade, optando pela construção do prédio. Foi uma parceria da comunidade com a administração pública que deu certo, atendendo uma antiga reivindicação daquele bairro”, reitera Ramos. Ela foi uma pessoa sempre dedicada ao trabalho, deixando um legado.

AS INFLUÊNCIAS MUSICAIS

A grande influência musical para Flávio Ramos é o cantor Dino Franco, que iniciou sua carreira na década de 40, como cantor e o nome artístico de Pirassununga. Lançou discos com muitas duplas: Pirassununga e Piratininga, Pirassununga e Belmonte, Biá & Dino Franco. Além de excelente e criativo músico, era um grande compositor e cantor. Dino se tornou produtor da Gravadora Chantecler, até conhecer o músico Moraí, com quem gravou 16 discos, até a morte de Moraí, em 16 de outubro de 1985. Algumas de suas mais célebres interpretações são “Sertaneja”, “A Cachaça e o Fumo”, “A Volta do Caboclo”, “Manto Estrelado” e “Cheiro de Relva”. Dino Franco morreu em Rancharia, munícipio do estado de São Paulo, em 4 de abril de 2014. Flávio visitou Dino, várias vezes, em Rancharia. Flávio cita também, Tião Carreiro, como uma influência importante em sua vida com a música.

CHITÃOZINHO E XORORÓ, ANTES DA FAMA, EM 1984

O radialista nos fala de um acontecimento que, provavelmente, a maioria da população da nossa região não sabe, que Chitãozinho e Xororó estiveram na Rádio Taquara, em 1984. Segundo Flávio existia um caminhoneiro chamado Soni Lima, na cidade de Novo Hamburgo, que viajava com frequência para São Paulo e gostava muito da música sertaneja. Em uma dessas viajens, assistiu Chitãozinho e Xororó, que iniciavam sua trajetória profissional, em São Paulo, e, propôs trazê-los para o Sul, especificamente Novo Hamburgo.

A dupla aceitou o convite e veio para a região divulgar o trabalho. Flávio Ramos conta que Soni Lima agendou um show no antigo Cine Lumiére em NH, no qual compareceram oito pessoas (Flávio, seu irmão Plínio, os primos Vicente, Odécio e Onésio, o tio Osvaldo, Soni Lima e mais uma pessoa que não recorda quem era). Como não havia público, Chitãozinho e Xororó sentaram na beira do palco, tocaram e conversaram com eles.

Cita também, que Soni Lima alugou um Dodge Charger para a dupla poder se locomover na região, o que na verdade virou um grande problema, pois os míseros trocados que conseguiam ganhar nos shows acabavam sendo consumidos pelo automóvel que era uma “garganta profunda”, revela.

Para ajudar os rapazes, seu primo Osvaldo, que tinha uma pequena loja em NH, e era apresentador do Programa Recanto da Amizade, na Rádio Progresso, de Novo Hamburgo, os acolheu por uma semana em sua casa. Osvaldo pediu brindes e intermediou alguns shows para eles poderem ter dinheiro para voltar a São Paulo.

Numa manhã de sábado, Flávio e seu irmão Plínio foram passear na casa do primo Osvaldo. Lá chegando, sentaram na garagem, uma porta aberta nos fundos avistava o corredor da casa. Viram um violão em cima do sofá, e tão logo, a dupla Chitãozinho e Xororó entrou na garagem, sentou com eles e cantaram algumas músicas. Chitãozinho e Xororó estavam lançando seu quarto disco com a música de trabalho “Doce Amada” a nível nacional.

No dia que estava marcada entrevista da dupla, na Rádio Progresso, em São Leopoldo, houve uma forte enchente que encobriu a região próxima à Vila Campina e imediações. Flávio lembra de Chitãozinho e Xororó atravessando a enchente de caíco até a rádio.

Em 1996, o SBT estreou o programa “Gente que Brilha”, apresentado por Blota Jr., como convidados da estréia estavam Chitãozinho e Xororó. O programa trazia histórias e pessoas que estiveram presentes na vida dos astistas antes da fama. A família do primo Osvaldo, de Novo Hamburgo, foi levada a São Paulo para participar do programa. Flávio comenta que durante as apresentações, Xororó pergunta à prima Carmen, filha de Osvaldo: “E o pai onde está?”, e ela responde: “Esta lá atrás, emocionado”. São as histórias do rádio e da música sertaneja afirma ele.

OS FESTIVAIS SERTANEJOS
Flávio Ramos organizou, em 1998, em Taquara, o SERTSUL, festival de música sertaneja, no antigo Cinema Cruzeiro, na Avenida Sebastião Amoretti. Foram três dias (sexta, sábado e domingo), com 33 duplas inscritas. Conta Ramos que vieram duplas de Novo Hamburgo, São Leopoldo, Campo Bom, Sapiranga, Parobé, Santo Antônio da Patrulha, Osório, Igrejinha, três Coroas, Canela, Taquara, Rolante, Gravataí, Porto Alegre e Cachoeirinha. Foram ganhadores Rei e Reinaldo, dupla da cidade de Igrejinha.

O Festival foi uma parceria com a iniciativa privada e a Prefeitura Municipal de Taquara, através da Secretaria de Assistência Social. Nos três dias foram recolhidos donativos de roupas e calçados repassados para a Assistência Social. A Administração Social não teve mais interesse em apoiar a iniciativa e o projeto foi engavetado, segundo Flávio.

Em 2001, o amigo de Flávio, Osvino Pinheiro, nascido no Campestre, em Rolante, na época morando em Campo Bom, tornou-se vereador naquela cidade. Osvino procurou Flávio para saber mais sobre o projeto do festival sertanejo e o levou para a cidade. Desde 2001, de dois em dois ano, o Festival Sertaneho acontece, em Campo Bom, considerado um dos maiores do gênero no Brasil.

“Em Taquara existe uma resistência às iniciativas locais, diferente de outras cidades, que valorizam as suas iniciativas e os seus talentos. Lembro de um Festival Sertanejo, em 1981, no ginásio do Parque do Trabalhador, com duplas locais e da região, onde foi anunciado a semana toda pela cidade e compareceram só os músicos e duas pessoas como espectadores: Eu e minha esposa Marta. E eram cantores de excelente qualidade como Enio, Luisinho, Neni, Derlan e Derli. Aqui, às vezes, é difícil fazer as coisas, falta solidariedade e senso de coletividade”, afirma Flávio.

Flávio Ramos, além de participar de festivais e compor músicas, formou dupla por mais de 10 anos com Dariu, professor de viola de Taquara. Entre tantos trabalhos, lançou o CD “Meu Canto Caipira”, com 16 músicas, fazendo parcerias com Dino Franco, Dariu e Paraíso. Um grande disco da música sertaneja brasileira. Também fez parceria com Boqueirão.

Atualmente, Flávio apresenta o programa Prosa & Viola, das 20h às 23h, na Rádio Taquara, com seu filho Flávio Eduardo Ramos que também é músico, compositor, cantor e produtor cultural, trabalhando na Gaiola Produções Multimídia, na rua Carlos Sander, 2312, no bairro Recreio, em Taquara, com produção musical, locução, jingles e spots. Dedica seu tempo para compor, pesquisar, cantar a boa música sertaneja de raiz. Hoje Flávio está casado com Gessi Luz, cantora gospel, que lançou o CD “Sonhos”, além de ser cantora do Coral Viva a Vida da FACCAT.

Mensagem do entrevistador: “Desde que, eu, Paulo Wagner, conheci Flávio Ramos, encontrei um homem que preserva a cultura da música sertaneja de raiz com seu conhecimento, um artista aberto a todos os gêneros, que não se prende a rótulos e fórmulas prontas. Tem na música e na poesia um modo de vida, como uma fonte inesgotável de sabedoria. Obrigado caro amigo!”

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