Memória Viva traz a história de Flávio Wichmann

Panorama publica os textos do projeto Memória Viva, que resgata a trajetória de personalidades de Taquara e região.
O Jornal Panorama publica os textos do projeto Memória Viva. A iniciativa busca resgatar histórias de pessoas da comunidade regional, lembrando suas trajetórias e aspectos marcantes. A cada 15 dias, um novo texto é publicado no site do Panorama. O projeto tem a coordenação de Paulo Wagner de Oliveira, diretor de Cultura de Taquara, responsável por realizar as entrevistas. Neste trabalho, a correção do texto foi das jornalista Magda Rabie, as gravações de vídeo de Jeferson Guedes (Mano) e Zé do Bêlo e a edição de Iana Kleinkauf. O projeto já estava em andamento, com textos anteriormente publicados no Facebook. Os jornalistas Jéssica Ramos e Vinicius Linden, do Panorama, também participam do projeto.
Flávio Wichmann concede entrevista a Paulo Wagner de Oliveira.

Wichmann um sobrenome de origem patronímica, aquele que origina do nome do pai. Do velho alemão Wicman, o sobrenome Wichmann significa “um filho de Wicman”, assim nos conta seu Flávio Wichmann. “Nosso sobrenome era antes o nome pessoal de nosso antepassado, como Pedro ou João, e, só mais tarde, se tornou um sobrenome”.


CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE




Com 78 anos           , nasceu em 1º de março de 1940, na localidade de Passo do Mundo Novo, em Taquara; filho de João Octávio e Frida Kollet Wichmann, viúvo de Rejane Müller Wichmann (falecida em 18 de setembro de 2001, aos 70 anos), pai de Letícia, avô de Antônia e Heloísa.


CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Mesmo com algumas dificuldades de locomoção devido a um AVC que o acometeu em 1986, aos 46 anos, perdendo a voz, além de outras sequelas, recuperou-se; hoje, a fala é clara, a lucidez e a memória privilegiadas e sua história pessoal e profissional se misturam à história da cidade pelo transcurso dos anos.

DA ALEMANHA AO SOLO GAÚCHO

A história da família em solo gaúcho e brasileiro iniciou com seu bisavô Friedrich Emil Helmut Wickmann, nascido em 26 de outubro de 1845, na localidade de Oldeslon, estado de Holstein, Alemanha. Fugiu do serviço militar obrigatório, na esperança de um recomeço de vida longe da fome, da pobreza, das doenças e das disputas de poder que tensionavam a Alemanha, escondeu-se no porão de um navio e veio parar em Porto Alegre. Não sabia para onde estava indo, poderia ter seguido para a China, Canadá, América do Norte, mas o destino o trouxe para o sul do Brasil.

Chegando em Porto Alegre, capital da Província de São Pedro, começou a trabalhar nos barcos de madeira, tocados a remo que singravam os rios nesses anos. Depois de muito trabalho, adquiriu o seu primeiro barco, começando assim, a história da navegação dos Wichmann. Friederich casou-se, em 21 de dezembro de 1878, com Wilhermine Carnas, nascida em São Leopoldo, filha também dos imigrantes alemães Wilhelms Carnas e Sophie Scramm.

Com a navegação, seu bisavô, chegou à Colônia do Mundo Novo, onde adquiriu um pequeno espaço de terra em um “banhado”, sendo tachado de “alemão louco” por comprar um lote de terras sem condições de construção devido ao solo movediço. Através de uma técnica com pedras, aproveitou a terra excedente de um morro próximo, firmando o terreno, construindo a sua moradia (técnica utilizada até os dias de hoje pela engenharia). Esta casa ficava próxima ao cemitério municipal, na antiga estrada geral que ligava Taquara a Porto Alegre. Infelizmente não foi tombada e hoje não existe mais. Um pedaço da história se foi.

A ECONOMIA GUIADA POR CARRETAS, BARCOS, BALSAS E TRENS

A economia de Taquara, nesta época, subsistia, exclusivamente, do comércio de arroz, feijão e milho, que eram transportados por carreta de bois, dos armazéns de Taquara até o Porto Velho, próximo ao Instituto Adventista Cruzeiro do Sul (IACS), porto este, que era utilizado por Friedrich Wichmann para transportar as mercadorias. Um detalhe interessante destacado por Flávio é que os carreteiros, com suas carretas e junta de bois, eram o transporte terrestre de carga mais importante.

“Seriam os caminhoneiros da época, tanto que as carretas eram identificadas por placas numeradas e concedidas pelo poder público”. Ele salienta que as placas eram colocadas nas cangas das juntas de bois, porém os carreteiros usavam o artifício de identificar uma canga que era usada por vários outros, evitando pagar a taxa de licença. Percebendo isso, as autoridades, passaram a exigir que a placa de licença fosse fixada no quadro de madeira (chassi) da carreta. “Desde sempre a cultura de burlar as leis é uma prática no Brasil”. Outra curiosidade que aponta é que havia carteira de carreteiro e muitos aposentaram-se comprovando a profissão através desta carteira.

Relembra que, dos filhos de Friedrich, só um deles continuou, Friederich Filho Wichmann, que adquiriu quatro hectares na localidade do Passo do Mundo Novo, onde construiu o primeiro e único estaleiro da Colônia do Mundo Novo e do Vale do Sinos. Destaca Flávio, que o conserto mais frequente era a troca do casco dos barcos, que, quando carregados, “esfregavam” nas pedras e cascalhos do fundo do rio. O começo da navegação foi com barcos de madeira, somente mais tarde vieram os barcos de ferro. Nessa época, Friedrich Wichmann Filho, com seu filho João Octávio Wichmann (pai de Flávio Wichmann), realizavam consertos de barcos, transporte de mercadorias, além de construírem barcos sob encomenda.

Rememora com saudade o tempo das balsas que faziam a travessia, de um lado a outro do rio, das carretas, animais e pessoas. “No início não tinham assoalho, eram feitas de varas atravessadas, começaram a ter assoalhos com a chegada dos primeiros caminhões no início dos anos 30”. Destaca ele que a travessia do rio, através das balsas, era uma concessão dada pelo estado (atualmente DAER), “aos Rangel”. “Essa concessão era conseguida através de concorrência, que sempre foi dada aos Rangel, desde a época de José Pedro Rangel, por influência de pessoas importantes de Porto Alegre”, explica.

Flávio acompanhou o pai em muitas navegações pelo Rio do Sinos, e faz um alerta. “Hoje não há mais condições de navegabilidade, pois na época havia muita vegetação ciliar nas margens do rio, e quando chovia durante alguns dias, o nível da água se mantinha por várias semanas, descendo de forma lenta, contida pela vegetação. Atualmente, devido ao desmatamento e consequente assoreamento, o nível da água fica muito baixo impossibilitando a navegação”.

Outro dado histórico importante que Wichmann revela, é sobre a produção de farinha de mandioca na Colônia do Mundo Novo. “Existiam inúmeras atafonas nas margens do Rio do Sinos, como exemplo, na Linha Gonzaga, Arroio Grande e Passo dos Ferreiros. A farinha de mandioca era usada em larga escala na alimentação dos portugueses, passando a ser um produto de exportação para outras províncias brasileiras.

Recorda que, logo após o fim do transporte pluvial, começou a era da Viação Férrea, em Taquara, que durou até o final dos anos 60. Taquara era a “encruzilhada” onde todos passavam. A linha do trem era Novo Hamburgo/Taquara/Canela, sendo que a primeira etapa da construção foi concluída em 1903, com a chegada em Taquara do Mundo Novo, dando origem às cidades de Canela, Gramado, Três Coroas, Igrejinha e Parobé. A estrada de ferro até Canela, só foi concluída, em 1924. A Estação do Trem, em Taquara, passou a ser o grande ponto de acesso das localidades mais distantes, como Santo Antonio da Patrulha, São Francisco de Paula e Nossa Senhora da Conceição do Arroio devido a localização geográfica privilegiada, fator esse que fortaleceu o comércio em nosso município.

Ele lamenta a destruição da malha ferroviária no Brasil. “O transporte ferroviário foi sendo abandonado em prol do rodoviário, começando no governo de Juscelino Kubitschek, o que implicou priorizar a indústria automobilística e expandir as rodovias. A ditadura militar exponenciou tal processo e a privatização da RFFSA (Rede Ferroviária Federal, Sociedade Anônima) jogou a última pá de cal sobre nossas ferrovias, atendendo os interesses das montadoras de caminhões e automóveis”, ressalta.

Tem um fato peculiar que Wichmann relembra. Devido à altitude que se encontrava, Canela era um trecho demorado, aproximadamente 50 km, pois a linha se elevava de 30 metros, em Taquara, para 830 metros, em Canela. Quando chegava na Estação de Várzea Grande existia o “rabicho”, ou seja o vai e vem, inventado pelo ferroviário João Corrêa que, com baixo custo, criou um sistema copiado por muitos, nos dias atuais é usado no Chile na sua malha ferroviária. Devido o aclive, o vai e vem, possibilitava que os trens contornassem o morro para chegarem em marcha reduzida e, em geral, de ré.

Taquara tinha a Vila dos Ferroviários, uma vila social e econômica de grande relevância para a cidade, pois além da Estação Férrea, havia um depósito de locomotivas para manutenção, que empregava muitos ferroviários. Nesta vila, nasceu, em 1916, Oswaldo Brandão, que além de levar o nome de uma rua taquarense, jogava futebol no time que levava o nome de Vila dos Ferroviários. Brandão foi jogador do Internacional de Porto Alegre, técnico e ídolo do Corinthians, Palmeiras e treinou o Peñarol, Flamengo e a Seleção Brasileira. Está na galeria dos 20 maiores técnicos da história do futebol brasileiro.

REGIME MILITAR – FATOS DA HISTÓRIA

Flávio Wichmann relembra fatos que marcaram a história do Brasil e repercutiram em Taquara, como o dia que Taquara foi “invadida” por militares com a intenção de prender pessoas que faziam oposição ao regime militar. Lembra de Aristides Severo, ex-vereador do PTB, ferroviário, e, para prendê-lo e levá-lo ao Departamento de Ordem Político e Social (DOPS) veio um “batalhão” inteiro fechando a rua Tristão Monteiro. “Parecia uma operação de guerra”, revela.

Também foram presos Indio Brasileiro Cezar, famoso advogado criminalista, cantor, ex-vereador do PTB; Theóphilo Sauer, ex-prefeito de Taquara, pai de Harry Alziro Sauer (hoje com 93 anos, foi vereador, deputado estadual por três mandatos e federal, em quatro, pelo PTB, MDB, PMDB). “Eu era jovem e lembro da polarização que houve na época, as pessoas se cuidavam, pois haviam informantes que poderiam levantar suspeitas contra o regime, assim, de uma hora para outra, qualquer um poderia ser preso e interrogado”, conta.

“QUANDO TODOS OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO FALHAVAM, O ÚNICO QUE RESTAVA ERA O RÁDIO AMADOR”

Flávio Wichmann é o radioamador mais antigo de Taquara, tem 42 anos de radioamadorismo. A história do radioamadorismo começou, em Taquara, com Alberto Badermann, Ruy Sander, Ary Marmitt, Carlos Alberto Kellermann, Paulo Ritter da Luz, entre outros. Ele menciona a importância dos equipamentos de radiocomunicação.

“Os PX’s e PY’s têm infinita funcionalidade, principalmente a de oferecer segurança. Atualmente, o rádio PX é mais utilizado pelos caminhoneiros. Na maioria das vezes, esses motoristas viajam em comboio, principalmente à noite, e se comunicam entre si para garantir a própria segurança e da carga, também. Mas, há outros aficionados pela Faixa do Cidadão com estações fixas (residências) ou móveis (rádio instalado no automóvel), sempre em busca de uma nova amizade, de um novo contato, ou simplesmente um bate-papo com os amigos do dia”, revela.

Já o rádio PY, conforme explica, é constituído por uma gama de frequências, cada uma para um determinado fim. O setor náutico, por exemplo, disponibiliza o Serviço Móvel Marítimo (SMM), criado pela Embratel justamente para a segurança da vida humana no mar, através das radiocomunicações.

“Quando todos os meios de comunicação falhavam, o único que restava era o rádio amador. Como foi o caso do desmoronamento da ponte seca, em 1965, que deixou Taquara isolada. Através do radioamador, Ruy Sander, durante três dias e três noites, ficou sendo o único meio de comunicação. As linhas telefônicas eram físicas e foram todas rompidas com o desastre, passando, Ruy Sander, de plantão em frente ao seu canal de radioamadores delta, recebendo e enviando notícias da cidade”.

Flávio também cita um fato histórico. “O radioamadorista taquarense, Ruy Sander, foi quem lançou o slogan Taquara do Mundo Novo, através do radioamador. Tristão Monteiro quando comprou e fundou a Fazenda do Mundo Novo, havia um passo no Rio dos Sinos que dava para a localidade tornando-se o Passo do Mundo Novo, ou seja, o passo para a Fazenda do Mundo Novo”. Flávio mantém seus equipamentos em funcionamento até os dias atuais. É uma memória viva.

O ESPORTE, O TRABALHO E A RELAÇÃO POLÍTICA

O gosto por esportes náuticos, também é revivido por Wichmann. Taquara segundo relata, sempre teve participação de destaque em corridas a nível estadual. “O Rio dos Sinos, por ser um rio estreito, com muitas curvas e obstáculos aprimorava as habilidades dos pilotos, os quais, quando competiam em rios e lagoas com mais espaço, ganhavam praticamente todas as competições”.

Descreve também, que a vegetação da região era formada por muitas taquareiras, as quais foram praticamente extintas com o surgimento, em São Leopoldo, da Fábrica de Papel Justo, que começou a fabricar papéis com taquaras. As pessoas mandavam através de balsas, rio abaixo, as taquaras até São Leopoldo, onde eram industrializadas na fabricação do papel.

Falando da profissão, Flávio Wichmann teve uma vida profissional bem diversificada. Começou acompanhando o pai quando menor na navegação dos “Wichmann” pelo Rio dos Sinos. Aos 14 anos começou a trabalhar na Olaria do pai João Octávio, no Passo do Mundo Novo. Foi caminhoneiro, fabricante de cola para calçados, despachante, fabricante e importador de cevada, fabricante de vasos de cerâmica, securitário, inspetor de seguros, representante comercial de calçados.

Viveu vários momentos e transformações da economia brasileira. O que percebe-se em seus relatos é que com o passar dos tempos, as transformações tecnológicas e a influência da globalização foram mudando o mercado, e muito rapidamente, coisas que pareciam consolidadas não conseguiram acompanhar todo o processo de mudanças.

Na sua trajetória profissional teve contatos com as esferas do poder estadual e federal, principalmente no segmento securitário, onde foi corretor e inspetor da seguradora Atlântica Boa Vista (hoje Bradesco Seguros), fundada em 1935, pela família Almeida Braga. As companhias de seguro da época tinham apólices com valores altos nas cargas terrestres e marítimas, principalmente, apólices dos cascos dos navios, que eram o “filé mignon” da época. Quanto ao seguro dos navios eram todos feitos por uma seguradora de “influência” de Mario Andreazza (Coronel do Exército), natural de Caxias do Sul (foi ministro dos Transportes e Interior nos governos militares de 1967 a 1979). Andreazza foi Presidente da empresa privada CEC – Equipamentos, Marítimos e Industriais e vice-presidente da Atlântica Boa Vista Seguros.

Conta que Ildo Meneghetti, ex prefeito de Porto Alegre e ex governador do RS (PSD), era na época presidente e maior acionista da Facelpa (fábrica de celulose, em Canela/RS), e que estava em negociação a mais de um ano, para trazer as apólices de seguro da Facelpa para a Atlântica Boa Vista. Certo dia, em uma reunião pela manhã, estava no quadro de apólices diretas (diretoria) um prêmio altíssimo, que, segundo informações era o seguro da celulose de Canela. Flávio foi conjecturar que era uma negociação dele, da sua base territorial, a qual já estava em andamento. Ouviu a seguinte resposta: “Para fechar o seguro, tivemos que nomear como corretor o filho do Meneghetti”.

Era importante, na época, ter um bom relacionamento com as pessoas que detinham o poder político e a segurança do estado. Wichmann lembra das conversas com Hildo Meneghetti, família dos Brochado da Rocha, com o Diretor do DOPS José Morsche (Departamento de Ordem Política e Social), criado em 1924, e extinto em 1983, com os ex prefeitos de Taquara, João Martins Nunes (1964/1968) e José Theomar Lehnen (1969/1972). “Os negócios e a política sempre estiveram envolvidos. Nada é novidade do que está acontecendo nos dias atuais. Sempre aconteceu”, revela.

Quanto à economia da fabricação de calçados, onde foi representante comercial Wichmann comenta. “O calçado está com os dias contados em nossa região. O calçado popular, fabricado em grande escala, será produzido por países do terceiro mundo com muita mão de obra barata e praticamente sem encargos sociais. Começou na China, está na Índia, e, está chegando na América Central”, afirma.

Flávio argumenta que Taquara, pela sua origem, não tem o histórico de investir na produção. “Desde o início, Taquara teve uma vocação especulativa, e com a emancipação de cidades como Parobé e Igrejinha, que tem uma vocação produtiva, deixou de ser o único polo comercial da região, pois essas cidades passaram a ter o seu próprio comércio. Taquara deveria buscar saídas e ampliar as opções através da economia sustentável, do turismo, gastronomia, e aproveitar o polo educacional que é o melhor da região”, destaca.

“O momento que passamos com Flávio Wichmann foi muito pequeno, mas de uma imensidão histórica e cultural. E assim vamos conhecendo mais a história do nosso Município e região, eternizada na memória, na lembrança, nas peças, documentos e fotografias de pessoas como Wichmann que cultivam, relembram e compartilham com amor sua experiência de vida conosco. Um abraço caro amigo! Espero que possamos contar muitas histórias!”