Memória Viva traz a história de Orlando Cunha

Panorama publica os textos do projeto Memória Viva, que resgata a trajetória de personalidades de Taquara e região.
O Jornal Panorama publica os textos do projeto Memória Viva. A iniciativa busca resgatar histórias de pessoas da comunidade regional, lembrando suas trajetórias e aspectos marcantes. A cada 15 dias, um novo texto é publicado no site do Panorama. O projeto tem a coordenação de Paulo Wagner de Oliveira, diretor de Cultura de Taquara, responsável por realizar as entrevistas. Neste trabalho, a correção do texto foi das jornalistas Magda Rabie e Jéssica Ramos, as gravações de vídeo de Jeferson Guedes (Mano) e a edição de Iana Kleinkauf. O projeto já estava em andamento, com textos anteriormente publicados no Facebook. Os jornalistas Jéssica Ramos e Vinicius Linden, do Panorama, também participam do projeto.

Radicado há 43 anos em Taquara, Orlando Cunha, 91 anos, nasceu em 17 de setembro de 1926, em Pedro Osório. Na época, o atual município era considerado Distrito de Pelotas. Teve uma adolescência e juventude, segundo ele, com muitas coisas boas, tempo que não sai da sua memória. Filho de José Orlando Cunha e de Rosa Cunha, aos quais é imensamente agradecido pela educação recebida, ele estende sua gratidão a toda família – que deu a base do seu caráter.

Cunha relembra, com carinho, do pai que era carroceiro e fazia fretes para as cidades e distritos, como Arroio Grande, Cerrito Velho, Canguçu e Pelotas. “O pai tinha duas carroças e eu, ainda quando criança, muitas vezes também fazia fretes para ajudá-lo”, disse. A mãe, Rosa Cunha, cuidava da casa e dos irmãos de Cunha: Juvenal, Noemia, Rosa e Ramão (adotado). Dos cinco irmãos, atualmente, apenas dois vivem; ele e “Rosinha” – apelido dado à irmã, carinhosamente. Outra lembrança da infância é o forno a carvão, do pai.

JUVENTUDE, POLÍTICA E CARREIRA MILITAR

Sobre a juventude, Cunha se lembra de muitos detalhes: “Pelotas era um polo de discussão política e de cultura na Região Sul. Era o Estado Novo de Getúlio, onde houve perseguição aos comunistas e aos estudantes, o que ativou a juventude naquela época”, relata. Segundo ele, ao encerrar o período colegial, com 18 anos, se alistou no Exército, também em Pelotas. “Logo que me alistei, 198 pelotenses foram convocados para servir em São Gabriel”, lembra.

De acordo com Cunha, em 14 de fevereiro de 1947 fez a adaptação, aplicação e formou-se soldado. De imediato, fez o curso de cabo durante três meses, sendo aprovado e promovido. Logo após a promoção, automaticamente, foi matriculado no curso de sargento, onde foi admitido oito meses depois como 3º Sargento.

“Surgiu um curso de sargento de Comunicações, no Rio de Janeiro, em 1948. Mais sete meses estudando e veio outra aprovação. Não era fácil, além do conteúdo, tinha o deslocamento. Neste último, foram quatro dias de ida, e quatro dias de volta. Tudo de trem, do Rio de Janeiro a São Gabriel”, descreve, destacando que daquele momento em diante passou a atuar como 2º sargento, na 13ª Companhia de Comunicações.

Em abril, de 1951, o então sargento saiu de São Gabriel para preencher uma vaga em Vacaria, no 3º Batalhão Rodoviário. Lá permaneceu até 1968. “Foram tempos de muito trabalho. Lembro-me da construção da BR 285, de Vacaria a São Borja; e da coordenação na construção do leito da estrada de ferro, de Lages a Roca Sales (Tronco-Sul), onde o Batalhão Ferroviário de Lages foi responsável pela colocação dos trilhos”.

Saindo de Vacaria, foi para Carazinho, atuar no mesmo Batalhão, a fim de continuar o trabalho de construção da BR 285. Depois disso, atuou como Tenente atuou em Cuiabá, na construção da Rodovia Cuiabá/Santarém, com 1680 km de distância. Permaneceu por dois meses na Região Central do Brasil.

LEMBRANÇAS DO MOVIMENTO DA LEGALIDADE

Sobre o Movimento da Legalidade, Tenente Cunha afirma que o 3º Exército estava com Brizola, para garantir a posse de João Goulart. Relembra que em 1961 receberam ordens de Brizola para guarnecer a ponte de Marcelino Ramos, que era o único acesso do centro país, na época, para o Rio Grande do Sul.

Comenta que, se fosse necessário, perante alguma ameaça de outras forças do centro do Brasil, as ordens eram para dinamitar a ponte. Cunha ressalta que estava reunido, naquele momento, um batalhão com mais de mil soldados armados. “Felizmente, não foi preciso e a posse de Jango foi garantida”, pondera.

Da época do Regime Militar, de 1964, Cunha guarda lembranças e sentimentos. “Saudades dos amigos de farda que foram presos, mandados para a reserva. Criou-se uma divisão dentro do exército. Foi um período de caça às bruxas”, descreve. Relata que o Batalhão de Vacaria foi o último a se entregar, num discurso emocionante de despedida do Coronel João Guerreiro Brito, que não aceitava a intervenção.

Tenente Cunha ficou em Carazinho até 1975. Naquele ano, foi transferido para Taquara para assumir como Delegado da Junta de Serviços Militares, onde atuou até 1981. Lamenta que o dia que atingiu a idade limite e teve que retornar, compulsoriamente, para a reserva. “Um dia antes da promoção atingi o limite de idade”, destaca.

DA ARTE, UMA INSPIRAÇÃO: PARTICULARIDADES DA FAMÍLIA

Emoção define as lembranças da falecida esposa, Zilma dos Santos Cunha. Às lágrimas, ele lembrou que a conheceu em um comício do PTB, de Getúlio Vargas. O evento aconteceu em São Gabriel, no ano de 1948. Segundo ele, não perderam tempo, casaram meses depois. Porém, Zilma faleceu aos 66 anos, em 1999. “Uma mulher especial, de valor, de paciência. Tinha sempre uma palavra de amor e tolerância. Uma esposa exemplar. Foi um anjo na minha vida”, disse, emocionado.

E se emoção define as lembranças da esposa, inspiração e arte definem as lembranças dos filhos. Dos sete filhos, que lhe somaram também nove netos e 11 bisnetos. “A primogênita da família foi a Carmen Elaine (que faleceu com seis meses), mas tivemos ainda o Herivelto, o Josué (que também faleceu, com 42 anos), o Gilberto, o André Luiz, a Inezita e a Marta”, conta.

Sobre a escolha dos nomes dos filhos, Cunha conta que os critérios foram particulares de cada período gestacional. “Herivelto é uma homenagem ao cantor Herivelto Martins, do Trio de Ouro; Josué lembra um grande amigo que reencontrei, depois de muitos anos, justo no período em que minha esposa estava grávida. Prometi que se nascesse menino, batizaria com o nome dele; Gilberto, escolhemos em consideração ao grande cantor e compositor da Velha Guarda, Gilberto Alves Martins”, descreveu.

Já André Luis tem ligação religiosa, segundo Cunha. “Reverencia o espírito de André Luiz, um dos espíritos mais presentes nas obras psicografadas de Chico Xavier”, disse. “Inezita foi uma escolha da minha esposa. Era fã da grande cantora, apresentadora, compositora e pesquisadora da música caipira de raiz, Inezita Barroso; Marta, foi em homenagem a uma personagem trazida em um romance, obra que li e admirei muito”.

Amante da arte, da música, da literatura, Cunha conta que aprendeu a tocar violão com 10 anos. O padrinho, que era canoeiro lhe ensinava. Dessa época em diante nunca mais parou. “Meus estilos preferidos sempre foram a Velha Guarda, o chorinho, a valsa, o bolero, e também a música gaúcha”, conta.

Nesse sentido, Cunha fala da felicidade e gratidão que teve ao tocar junto a músicos e amigos, que ele considera grandiosos, como Antoninho Duarte (violista que tocou muitos anos com os Mirins); Décio Ritter (professor de história e violonista – morava na Vila Tereza e foi vereador em Taquara); Egon Silva (cantor que acompanhou Cunha por muitos anos); e Roberto da Fé (cantor, compositor e barbeiro). De todos eles, só Roberto da Fé está vivo.

Saudoso, Cunha também lembra do tempo que fazia serenatas nas casas, junto com amigos, na busca de ajudar alguém a conquistar o coração de uma mulher. O gosto da poesia, que o conquistou e fez dele um declamador.

RELIGIOSIDADE

Outra inspiração, segundo ele, foi a Doutrina Espírita. Conheceu o Livro dos Espíritos, de Alan Kardec, em Vacaria, no ano de 1951. Desde então, iniciou os estudos e o trabalho contínuo com a doutrina espírita. Foi presidente e fundador do Centro Espírita de Vacaria. Em Taquara, foi três vezes, presidente do Centro Espírita Irmã Dalva, e sempre colaborou com todas as campanhas a favor dos necessitados promovidas pelo centro.

Cunha lembra de um fato histórico envolvendo o Espiritismo: “Sempre, no dia 23 de novembro, o comando do Exército ‘convocava’ os oficiais para a missa do dia da Intentona Comunista, de 1935. Porém, existia, e existe até hoje, o Núcleo da Cruzada dos Militares Espíritas. Eu fazia parte desse núcleo e, junto com outros 10 oficiais, procurei o Coronel do Batalhão para solicitar a liberação dos espíritas da missa em nome da liberdade religiosa. Foi um momento tenso”, conta.

Ele destaca que a situação tornou-se um marco. “A decisão foi para o Ministério da Guerra e, a partir daquele momento, foi expedida ordem para todos os quartéis brasileiros. Ninguém mais professaria contra sua fé. A liberdade de opção religiosa deveria ser respeitada”.

Lúcido e satisfeito com sua trajetória, Cunha encerrou a entrevista com a seguinte declaração agradecendo: “Queria te agradecer por ter se lembrado de mim. Agradecer a Deus por estar vivo neste mundo de ilusões, realizações e esperanças. E que ao partir para o plano espiritual, eu possa deixar no mundo físico boas lembranças, boas amizades. Pois a única coisa que busquei na minha vida foi fazer amigos, e não ter inimigos”.

Nota do entrevistador e escritor: Foi uma manhã, fria, de sábado. Momento em que estive reunido com o Tenente Cunha, acompanhado de seus filhos Herivelto, Gilberto e Marta. Mas o sentimento foi de um calor humano intenso, vindo daquele homem que, em virtude de um começo de AVC – que sofreu dias antes – ainda se sentia um pouco fraco. Confesso que, mesmo já conhecendo esse grande homem, essa grande pessoa, esse grande ser, foi um dia gratificante. Poder ouvir esta bonita história de vida e realizações. Obrigado seu Orlando! O mundo precisa de mais gente como o senhor!

Mais informações: Intentona Comunista, também conhecida como Revolta Vermelha de 35, Revolta Comunista de 35, Levante Comunista, e Levantes Anti-Fascistas, foi uma tentativa de golpe contra o governo de Getúlio Vargas, realizado em 23 de novembro de 1935, por militares, em nome da Aliança Nacional Libertadora, com apoio do Partido Comunista.