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Memórias do exílio (ou como estou passando pela Pandemia), por Luiz Haiml

MEMÓRIAS DO EXÍLIO (ou como estou passando pela Pandemia)

No dia em que rascunho isso, não estou bem. Não, não é o vírus. Pelo menos ainda não. São dores antigas que voltam mais fortes em regiões já operadas, em regiões não operadas (Deus queira que nem precisem),  e em regiões, talvez, sujeitas a cirurgia futura, pois já avisadas sobre tal possiblidade. Hérnia, menisco, pneumotórax,  entre outras coisas ( já passei por tudo isso), mais o frio inesperado e forte,  mais a chuva que mexe com os dodóis dos “mais idosos”, mais o stress psicológico trazido pela pandemia puxaram e ampliaram os males em mim com força maior.

Quem pensa que o exílio involuntário traz repouso, se engana, só budas e iniciados nele conseguem um pouco de paz, e essa, creio, será apreensiva. Nosso inconsciente está direto acumulando e tentando entender e trabalhar as incertezas, os medos, as mudanças, a grande situação a que teremos que nos adaptar, e isso mais para pior do que para melhor.

É estranho ver jornais antigos – que uso de banheiro para duas cadelinhas – quando o vírus era apenas boato ainda longínquo, jornais com programação de cinema, teatro, grandes shows, com Grenais e outros jogos importantes, jornais de tempos da última eleição, jornais de quando o mundo não tinha virado de cabeça para baixo, nem o país,  nem nossa cidade, nem nossas vidas.

No começo, quando o vírus foi anunciado estar por perto,  e começamos os confinamentos, acho que embarquei na sinistra jornada como a maioria, com aquela sensação de que o tapete tinha sido puxado de sob meus pés, de isso não pode ser real”, depois, depois veio o anestesiamento e segui como um sonâmbulo indo por um sonho dormente.

Então, por um instante, apesar do fantasma cinzento pairando sobre tudo, quando se ampliaram os dias do isolamento, pareceu interessante a ideia  de ficar em casa, poder terminar livros e séries  começados nas férias, se atirar em novos sem precisar estar interrompendo, fuxicar em coisas antigas, descobrir aspectos que a casa e pátio estavam precisando, enfim. Confesso que, uma das coisas que estou gostando é que a cidade silenciou.  Acabaram-se os barulhos insuportáveis que ocorrem dia e noite em nossa cidade. Voltamos, por meios ruins, a uma Taquara antigamente e gostosamente quieta. 

Mas quanto ao confinamento, se em seus inicios estava até confortável, foi mudando. Fui caindo na real conforme a peste avançava irrefreável, ficando cada vez mais perto, mais perto. Assim, ficar normal como? Com tantas incertezas. Como passa? Quem já tem? Há ou não há vírus?  Quando/como cura? E se precisar de médico? Como fazer as coisas da rua (compras, pagamentos, documentos) evitando filas e aglomerações? E o emprego? E se eu passar para um familiar? Ou o contrário? Máscara ajuda? E minha esposa, lidando todos os dias, o dia inteiro com vários pacientes? Meu Deus! Tantas coisas!

Em abril meu pai teve uma crise, não por causa do vírus (graças), problemas da idade, 94 anos. Ficou dias sem sono, por alguns motivos, foi a duas clínicas, e eu, mais vezes, levando ele e depois os exames, buscados em laboratórios vários, e eu morrendo de medo do maligno a  rondar por aí, principalmente em tais ambientes. Mas tudo certo, ele melhorou, continua firme, e eu estou aqui, e espero que, quando estiveres lendo este texto, meu leitor, eu ainda esteja por aqui, bem, e vivo.

Nesse período que descrevo, me amotinei, briguei com Deus, com Krishna, blasfemei, questionei, quase perdi a fé, mas acabei vendo que, se o homem  tivesse adotado muita da sabedoria que as antigas religiões tem em reconhecer o outro como um igual, e também quanto aos hábitos para uma boa saúde, não estaríamos agora  com o Corona no lombo. Então dizem “como Deus deixa?”. Ele não deixa. Porém, Ele já deu as deixas, agora Ele apenas deixa o homem continuar mostrando a si o quanto é burro (desculpe-me o animal pela metáfora), e continua a não mudar, a não melhorar.

Finalizando, este texto primeiro foi datilografado.
Sabe o que é isso? Escrito à máquina de escrever.

Desencavei a pequena Olivetti de meu falecido sogro, e ela está a mil, inclusive na produção de outros gêneros de texto. Mas isso é assunto para a outra crônica.    

18 de Junho, pandemia 2020.

Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
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