Multiplicadores de boas escolhas: saiba mais sobre o Proerd e as instrutoras do programa, em Taquara

Educação

Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência, criado nos Estados Unidos, completa 18 anos no município.

Soldados, Carla Cristina Batista dos Santos e Daniela Maycá de Souza, são as instrutoras do Proerd, em Taquara, há 12 e 13 anos, respectivamente. Fotos: Jéssica Ramos/ Jornal Panorama.

Em 2019, o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), que é um serviço de atuação social da Brigada Militar (BM), completa 18 anos em Taquara. Para marcar a data, a reportagem do Jornal Panorama e Rádio Taquara procurou trazer mais informações sobre o programa, e também sobre as instrutoras que ministram as aulas no município. O resultado desta visita ao quartel da Brigada Militar, você confere a seguir.


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Foco na aprendizagem socioemocional

Conforme explicaram as soldados, Carla Cristina Batista dos Santos e Daniela Maycá de Souza – instrutoras do Proerd, em Taquara, o programa nasceu nos Estados Unidos. Segundo elas, o currículo foi criado a partir de uma pesquisa, desenvolvida na Universidade da Pensilvânia. O material não pode ser modificado, por isso, cada instrutor do Proerd passa por duas semanas de curso, onde é capacitado, e recebe noções pedagógicas e técnicas, específicas do programa. Nessas duas semanas, o policial sai apto a trabalhar com a educação infantil, séries iniciais, quintos e sétimos anos.


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O instrutor também recebe um manual, com conteúdo correspondente a cada uma das séries que ele trabalhará. Conforme Maycá, o conteúdo é baseado na aprendizagem socioemocional, estimulando o desenvolvimento do controle dos sentimentos. “É assim que se orienta a tomada de decisões responsáveis, principalmente frente a situações que envolvam as drogas e a violência”, explicou a instrutora.

Maycá também contou que o “carro chefe” das aulas do Proerd são os quintos anos. Segundo ela, porque se percebe uma melhor disposição e compreensão do conteúdo nesta idade. Além de ser uma fase marcada por curiosidade e experiências distintas. Por esta razão, em Taquara, o Proerd é aplicado em todos os quintos anos das escolas da zona urbana, desde 2009.

Conforme as instrutoras, o foco principal do programa é orientar escolhas seguras e responsáveis. Para isso, a abordagem utiliza um modelo de tomada de decisão, com quatro passos, em que a criança precisa identificar o problema da atividade; avaliar as opções de solução e, depois, também reavaliar se a escolha foi a melhor. O conteúdo é desenvolvido com atividades teóricas, feitas em sala de aula, e também com a família.

E se tratando de família, Carla e Maycá explicam que o fortalecimento de vínculo, entre os alunos e os familiares deles, é constantemente exercitado. “Tanto em palestras, quanto nas atividades de aula, há essa referência. E eles mesmos trazem perguntas sobre situações que envolvem familiares”, descreveram.

Resultados que vão além da teoria

Segundo Caral e Maycá, os resultados da atuação social da Brigada Militar vão além da teoria. E, isso faz toda a diferença na rotina de ambas. Com mais de 10 anos de Proerd, e mais de 10 mil alunos formados, elas afirmam que, devido ao programa, houve uma aproximação muito importante entre a Brigada Militar e a comunidade. “Se desmistificou a impressão de que a polícia só atua na repressão. Só está presente onde há problema. Se mostrou que também atuamos na prevenção, na tranquilidade, nos momentos bons. Antes, quando as pessoas viam uma viatura da Brigada nas escolas imaginavam que alguma coisa errada tinha acontecido. Agora, já sabem que existe este policiamento escolar, o Proerd, e relacionam à nossa atuação social”, explicaram. Segundo elas, as ocorrências no entorno das escolas também diminuíram bastante, com o patrulhamento escolar.

Conforme as policiais, as dificuldades existem. E quase sempre estão relacionadas a casos pontuais de comportamento que, normalmente, envolvem alunos repetentes, que já têm idade superior a do público do programa, e da própria turma. Como contornam a situação? “Ministrando aulas mais leves, e mostrando que as crianças têm valor. Fazendo com que elas se sintam valorizadas”, explicaram.

E a motivação para trabalhar com os pequenos, conforme comentam Carla e Maycá, são os próprios alunos. A evolução deles. “Conseguir atingir o objetivo de orientar o exercício de boas escolhas. Infelizmente, não conseguimos um resultado prático de 100%, mas de uma maioria, sim. E, acreditamos que, se conseguirmos transformar a realidade de um aluno que seja, já valeu todo o trabalho. Eles são nossa maior motivação”, disseram.

Conforme elas, reencontrar ex-alunos do Proerd, seguindo caminhos do bem, atuando em sala de aula, e até mesmo na própria Brigada Militar, é muito gratificante. “É muito bom ver que eles cumpriram o juramento que fizeram no dia da Formatura. Seguiram fazendo boas escolhas. Isso, para nós, é muito gratificante. O êxito para nós é esse”, disseram. Outro retorno, bastante gratificante, segundo elas, é o reconhecimento dos alunos, ora com abraços e elogios, ora com redações – bem escritas e premiadas.

Para o Capitão da corporação da BM taquarense, Juliano Arali, é muito importante poder desenvolver o Proerd no município. Disse que a atribuição constitucional da polícia militar é a manutenção da ordem pública, e isso diz respeito tanto à repressão, quanto à prevenção. Explicou que a Brigada, que tem a atribuição de polícia ostensiva, força do Estado, por muito tempo foi vista apenas como repressora. Mas, com o Proerd, atuando como ferramenta de prevenção contra as drogas e a violência, se desmistifica essa percepção e aproxima a polícia da população, criando um vínculo de confiança, e diminuindo índices de criminalidade.

De aluno a soldado

Conforme descreveram as policiais e instrutoras do Proerd, em Taquara, Carla e Maycá, umas das maiores motivações para trabalhar com o público escolar, é ver que os alunos cumpriram com o juramento, feito na formatura do programa. Motivação que elas encontram dentro do próprio quartel, atualmente, trabalhando com um colega de farda que já foi aluno proerdiano.

Bruno Felipe Engelmann, 27 anos, formou-se no programa em 2002, pela escola Theóphilo Sauer. Soldado da BM, desde 2014, e ex-soldado do Exército Brasileiro, ele conta que não pensava em seguir carreira na polícia. Mas, aproveitou as oportunidades profissionais que recebeu e acabou se envolvendo com a profissão.

Disse que, na época em que participou do Proerd, com 10 anos de idade, as drogas não eram um problema tão grave e recorrente na sociedade. Principalmente na escola. O que se fazia nas aulas era mostrar os riscos e o que poderia ocorrer, caso os alunos experimentassem alguma substância.

No entanto, para Engelmann, “o Proerd hoje, talvez seja o único programa que traz, para a escola, o conhecimento sobre os males que a droga causa em quem faz uso, e para quem convive com o usuário. Além disso, é uma oportunidade das crianças ficarem mais próximas da polícia e mostrar que fazer medo é errado. Na verdade, o policial está ali pra ajudar”, afirmou o soldado.

Engelmann disse que acredita que cada um escolhe seu caminho, dentro do contexto em que se vive. “Porém, caráter não se define por condição social. Ninguém é obrigado a usar drogas e virar bandido, para mim, entra nesse mundo quem quer. Acredito também, que há uma grande inversão de valores, onde o bandido é a vítima e o policial é o vilão, essa parte além da mídia, é uma maneira de desviar o foco real do problema, que começou porque alguém tomou um caminho errado. E nos estamos aqui para ajudar os de bem, que escolheram o caminho certo”, finalizou.

Policiais multitarefas

Tanto Carla, quanto Maycá, são concursadas e trabalham em qualquer setor dentro da Brigada. Tanto no policiamento, quanto na sala de operações, administrativo e, no período letivo, se dedicam às atividades da Patrulha Escolar – nesse período fazem o policiamento escolar, e desenvolvem projetos sociais da BM. Além da instrução do Proerd, já atuaram no programa Policial Militar Mirim (que durou de 2011 a 2017 – em Taquara); e no Quartel Legal (nesse, as crianças visitavam o quartel da BM para acompanhar o trabalho dos brigadianos). Segundo elas, no Brasil, apenas sete estados possuem Centro de Treinamento de instrutores do Proerd. O Rio Grande do Sul é um deles.

Soldado Daniela Maycá de Souza

Tem 39 anos; na Brigada Militar, há 16 anos; no Proerd, há 13 anos. Formada em fonoaudiologia, e pós-graduada em psicopedagogia. Contou que nunca pensou em ser policial militar. Que a ideia de prestar o concurso nasceu em uma conversa com uma tia dela.

Soldado Carla Cristina Batista dos Santos

Tem 36 anos; na Brigada, há 16 anos; no Proerd, há 12 anos; acadêmica de Serviço Social; Contou que vem de uma família de militares, e sempre sonhou em ser a primeira mulher da família a entrar para a profissão.

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