Na tela da memória, por Luiz Haiml

Leia o artigo mensal do professor Luiz Francisco Haiml.

Na tela da memória

Como já disse em texto anterior, não sou bom com datas. Anos, meses e dias em números me escapam. Mas, dos eventos, de certos eventos, não esqueço.

Era uma tarde de bastante calor. Era um sábado. Eu ainda lecionava na FACCAT, e, naqueles dias, após meu ministério das aulas da tarde, de vez em quando eu combinava de me achar com meu pupilo Rafael (que agora anda pelas terras de Cervantes em seu pós-doutorado) para bebermos alguma coisa nos últimos dias do quiosque que havia na praça central de nossa cidade.

Para mim, tais saídas com o Rafa me eram boas, pois chegava o fim de semana, e voltar para a casa onde por mais de um ano eu convivera com minha primeira esposa, onde ainda ardiam memórias de todos os tipos, era uma opção que eu fazia por preterir. Conversávamos, eu e o Rafa, quando de repente meus olhos perceberam uma criaturinha sentada num banco mais a nossa frente. Banco hoje que também não existe mais.

Fascinou-me logo aquele ser, pernas cruzadas lançadas para a frente, mãos em prece presas entre as coxas, cabeça baixa. Entre um gole e outro meus olhos se voltavam para tal jovem, aquela inesperada aparição, que eu não percebera chegar, que antes não estava ali, e que apesar da tristeza que emanava, encantava o lugar. Conheço muita gente nesta cidade, afinal, é mais de meio século que moro aqui, mas C. me surgia pela primeira vez.

Conhecem a Jessica Jones do seriado de Tv com mesmo nome? C. era tipo ela, um pouco mais baixa, bem, a tv muda a altura das pessoas, mais magrinha e cabelo diferente. Disse eu ao Rafa “vou convidar ela para sentar com a gente”. Ele, sabendo que sou um eterno romântico, se limitou a um concessivo e sorridente “tudo bem”. Mas acabou que escrevi um bilhete que o Rafa levou para ela.

Ela leu o recado, olhou para ele, olhou em minha direção, sentiu firmeza, ou seja, a energia de sermos gente boa e aceitou o convite. Mas foi que, até isso acontecer, já estava quase na hora do Rafa ir embora, o acompanhamos por uma parte do caminho e dai, pelo crepúsculo, eu e minha nova amiga ficamos a perambular enquanto eu era informado por ela sobre sua triste sina.

De Seberi veio trabalhar em Parobé. Lá conheceu um cara por quem se apaixonou, e assim se entregara a ele totalmente, até descobrir que a enganava, era casado. Ficara mal falada em Parobé, e queria sair de lá, ficar longe do cafajeste que ainda a atormentava. Muito confusa com tudo, ao mesmo tempo em que procurava emprego em Taquara, onde parava na casa de uma senhora amiga da família, também pensava em voltar para Seberi.

Naquele tempo existia o Cine Viena, ao qual eu tinha acesso livre e assim, em primeira mão, podia comentar as películas para este jornal. Para o sábado a noite que chegara eu já havia me programado a uma sessão, então convidei-a. O filme “O Novato”, suspense policial com Al Pacino e Colin Farrel. Muito bom. Lembro que destaquei, entre outras coisas, a excelente qualidade sonora da película. Durante a projeção não peguei sua mão, não passei o braço por trás dela, mas nos aconchegamos pertinho e distraídos pela narrativa e pelo carinho de nossos corpos encostadinhos esquecíamos assim nossas inquietudes.

Nas semanas próximas, em que no encontramos algumas vezes, C. conseguiu resolver seus problemas. Mas a pedido da mãe, e por outros motivos, decidiu voltar para casa. Durante esses dias não fomos exatamente namorados. Um ou dois beijos mais profundos, abraços longos e silenciosos em que nossas angústias se amenizavam.

Éramos como dois anjos caídos tentando consertar as asas um do outro, personagens flutuantes de uma cinzenta balada de Springsteen, ou das melancólicas linhas de Kerouac nas quais seres se acham em rápidos instantes de iluminação para restarem apenas nas lembranças.

C. deixou-me. Sem problemas, ela precisava respirar, repensar seus caminhos, ver mais com a razão do que com a emoção.

Novas situações e pessoas surgiram em minha vida, mas um dia liguei para ela, não estava. Sua mãe, porém, sabia de mim. Agradeceu-me a força que eu dera a filha e eu soube que C. voltara a estudar e que então estava a namorar um rapaz bem querido. Fiquei feliz.

Dela restou-me uma carta, em letra grande e bonita. Ainda a tenho.