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Não é da nossa conta

A tragédia da fome, dos atentados e da seca que exterminam a população da Somália ficou em segundo plano, quando não completamente ignorada pela mídia mundial, nos noticiários da semana. Enquanto John Mayer era o centro das atenções, ao chegar em São Paulo de meias e chinelos, como alardeado pela imprensa, centenas de civis foram dizimados num atentado terrorista neste país africano quase esquecido e apagado do mapa e da mente dos cidadãos civilizados, como eu e você.

Tenho certeza de que a maioria estava muito mais preocupada com as vestimentas do cantor John Mayer, compartilhando likes e comentários nas redes sociais, enquanto a tristeza sem fim da dor incomensurável no olhar faminto dos que sobrevivem na Somália passou batida. “Não é da nossa conta”, ignoram os países empenhados justamente em combater o terrorismo e a fome no mundo.

Qual mundo? Se não é da sua, da nossa conta, de qual mundo falam os as “lideranças” burocratas e imbecis, tão empenhadas em fortalecer acordos nucleares e armamentistas que sustentam a indústria bélica? A quem interessa o sofrimento dessa gente desesperançada que ainda insiste em viver?

De todos os tipos de guerra, talvez essa seja a mais cruel, a mais dura, a mais árdua batalha entre seres de uma mesma espécie. É a morte por inanição, por esquecimento, por abandono e pela total invisibilidade.

São pessoas que simplesmente passam a não existir porque não são vistas, escondidas sob o véu do completo anonimato. São “Os ninguéns”, citados pelo escritor Eduardo Galeano, que não valem a bala que os mata, perante os olhos da sociedade que os julga por critérios irrevogáveis.
A qual mundo pertencem essas criaturas, esses ninguéns que ninguém quer por perto? Por acaso há outras possibilidades para abrigar essa gente neste planeta excludente? E se isso não for da nossa conta, de quem mais será?

Agora, calem-se! Um minuto de silêncio, por favor! Ouçam o choro contido na brisa que sopra pela janela da sua sala. São deste mundo, deste único mundo que temos, os gritos que só escutamos se despertarmos a consciência.

E são deste mundo e da nossa conta, sim, as vítimas inocentes que tombam sob o olhar míope, alienado, de todos nós. Deste mesmo mundo que não cala a boca porque é berrando que ensurdece a todos. E que não vê porque, ignorando, encobre tudo no manto invisível tecido pela humanidade, essa mesma humanidade que não mais nos habita.

Mais um minuto de silêncio, por favor, porque em breve recomeça o barulho ensurdecedor que nos impede de ouvir, novamente, o pedido de socorro, seja dos irmãos da Somália ou de qualquer outra parte do mundo.
Enquanto isso, aguentem firme, irmãos, se puderem sobreviver à indiferença que mata mais do que a fome, a seca, o terrorismo e todas as guerras. Aguentem firme e, de preferência, em silêncio, para não perturbar o sono de quem não tem nada a ver com as coisas deste mundo.