Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, por Heliomar Franco

Caixa Postal 59

Leia artigo do delegado regional Heliomar Franco sobre a paralisação do país por conta do coronavírus e os efeitos econômicos.

Hoje estamos reclusos, torcendo para que algo sombrio se esgueire pelas ruas e vá em direção ao infinito, sem nos encontrar. Como consequência, afastamo-nos do trabalho e das relações sociais, para preservar aqueles que amamos. O resultado, porém, da paralisação das fábricas, do comércio, das escolas, do transporte e das mais diversas atividades humanas nos trouxe reflexos imediatos. Alguns já se fazem perceber. Outros, bem mais nefastos, nos aguardam ali na esquina.

Em que pese a gravidade e facilidade do contágio do coronavírus e o risco letal que oferece a boa parte da população, convido o leitor ao raciocínio. Refiro-me ao fato real de que a imensa maioria dos brasileiros não pode se dar ao luxo de se recolher atrás de grossas portas de madeiras de lei. O próprio sustento, e o dos seus, alguns buscam no dia de trabalho; o que ganham, rapidamente consomem em artigos de primeira necessidade, como alimentos e remédios. Mas, e o amanhã?

Sem comida, sem medicação, sem esperança? Por quanto tempo um pai de família suportará o choro das crianças e o olhar angustiado da esposa diante de uma despensa vazia? E se houver colapso energético, saques em supermercados e outros comércios em geral?

Essas perguntas nos fazem pensar em alternativas para resolver, ou amenizar, a escassez de alimentos e remédios que se avizinha. Que medidas o governo pode adotar para manter a dignidade de a segurança da família brasileira?

Um contingente humano,sem renda, poderá se encontrar diante de um cruel dilema, que normalmente só não se manifesta nas pessoas que habitualmente vivem do crime.

Não quero aqui me alongar em sinistras previsões, eis que a ética profissional me impede de fazê-lo, mas entendo como imperioso e urgente revermos, paulatinamente, as medidas restritivas extremas, ora em curso, sob pena de nos vermos diante de problemas bem maiores para nossa existência, e muito além da capacidade resolutiva de nossas forças públicas.

Limitação de circulação da população em risco, regramento de atendimento em comércios, regras rígidas no transporte público, direcionamento de recursos para atendimento hospitalar, proteção para os que nos protegem, entre outras coisas, poderiam aos poucos afastar o perigo do caos econômico e, principalmente, de segurança pública que se aproxima.

Por Heliomar Franco
Delegado de Polícia