Nenhuma tecnologia é óbvia, por Rafael Tourinho Raymundo

Rafael Tourinho Raymundo

Leia a coluna do jornalista Rafael Tourinho Raymundo no site do Jornal Panorama.

Nenhuma tecnologia é óbvia

Hoje estou aqui para tensionar o mito da tecnologia intuitiva – aquela que, de tão simples, qualquer ser humano domina em dois tempos. Até onde sei, nada é fácil ou óbvio demais para todo mundo.

Começo buscando uma referência basilar para os estudos de tecnocultura. Trata-se do livro Cultura da Interface: Como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. A obra de Steven Johnson, embora publicada no distante ano de 1997, ainda oferece insights para pensarmos as imbricações entre tecnologia e sociedade.

O autor dedica um capítulo inteiro ao hiperlink. Em linhas gerais, estamos falandode um elo entre duas páginas, ou de um elemento clicável que leva o usuário de um lugar a outro na web.

Nos primórdios da internet comercial, era bem fácil identificar um link. A palavra aparecia destacada do restante do texto, sublinhada e azul. Ao passarmos o cursor por cima dela, a flecha se transformava numa mãozinha. Era o indicativo de que podíamos clicar ali e seríamos conduzidos a um novo conteúdo.

Johnson destaca que esse recurso pode forjar relações semânticas, isto é, unir ideias díspares para a construção da prosa digital. Dou um exemplo: se escrevo “Marcela saiu para passear com seu cachorrinho”, o significado da frase parece bem direto. Porém, se eu linkar o trecho “seu cachorrinho” a uma foto do ex-presidente Michel Temer, de repente o enunciado ganha toda uma conotação de deboche.

Em jornalismo digital, convencionou-se utilizar hiperlinks para tornar as reportagens mais sintéticas. Assim, ao publicar a décima notícia sobre corona vírus na semana, o redator não precisa explicar, mais uma vez, que doença é essa. Basta inserir um link para uma matéria anterior que contextualize o assunto. Se o leitor, porventura, quiser se aprofundar nas informações, é só seguir o caminho das palavrinhas azuis.

Ou melhor, era. Após sucessivas atualizações de layout, os sites de 2020 não mantêm mais as mesmas características de outrora. Tem hiperlink de tudo quanto é cor. Alguns são tão discretos que mal se diferem do texto regular.

Verdade seja dita, há estratégias gráficas que permanecem inalteradas. O cursor ainda se transforma numa mãozinha quando passa sobre um elemento clicável. Mas isso, só para quem usa computador.

Eis o ponto nevrálgico. No Brasil, o principal meio de acesso à internet é o celular. Em vez de mouse, as pessoas navegam com o toque dos próprios dedos. E, bem, nosso polegar não muda de formato ao encontrar um hiperlink. Tamanha reviravolta, nem Steven Johnson imaginaria.

O resultado da migração tecnológica é que muita gente não percebe se há links no texto. Tal fenômeno acontece porque esses indivíduos não foram ensinados a identificar os elos de ligação entre as páginas da web. Eles não têm o mesmo repertório de quem opera um notebook.

Dito de outro modo, a navegação pela internet não é uma experiência intuitiva. Ela é a consequência de comandos oferecidos por uma ferramenta e que são, aos poucos, assimilados pelo usuário. É preciso manipular o objeto (ou a interface) para saber que ação se sucederá. Nessa lógica, tecnologias diferentes criam hábitos diferentes.

Sei de um caso ocorrido numa escola daqui da região. O professor solicitou um trabalho a seus alunos de Ensino Médio. Todos eram nativos digitais, acostumados a trocar mensagens por WhatsApp e a editar imagens para publicar no Instagram. Contudo, ninguém sabia formatar um texto em duas colunas no Word. Nunca houvera essa necessidade antes, então os jovens desconheciam o software. Outros tempos, outros conhecimentos.

Também me lembro de um vídeo que viralizou uns anos atrás. Mostrava um bebê apalpando as páginas de uma revista impressa e fazendo gestos de pinça, como quem tenta ampliar as fotos num tablet. “As crianças de hoje em dia já nascem conectadas”, diziam alguns. Bobagem. O guri estava simplesmente reproduzindo o comportamento que aprendera com um dispositivo eletrônico. Essa foi sua referência primária, o papel que era novidade.

Em resumo, não existe tecnologia intuitiva. O que existem são as gramáticas visuais, tecnológicas e culturais que aprendemos. Muitas delas são óbvias para certos grupos, mas devem ser ensinadas reiteradamente aos demais, senão a confusão está armada.

Para ilustrar: problemático é quando o sujeito não sabe distinguir entre meme humorístico, coluna opinativa e manchete noticiosa. Aí vem o risco de sair espalhando desinformação e fake News entre os amigos. Se bem que isso já é outra história.

(Quer saber mais sobre fake News?Acesse o link acima. É aquele pedaço em azul ali, ó.)

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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