O amargo do instante, por Doralino Di Souza

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O amargo do instante

Quando minha mãe falou sobre tua pessoa fazia um inverno tão duro quanto este que está aí. Estávamos os dois ao redor da mesa. Eu tentava fazer um velho celular voltar a funcionar enquanto ela bebericava café preto numa xícara de porcelana azul. Nossa casa não tinha os luxos dos quais eu havia passado boa parte da infância ouvindo que um dia teríamos. Ela ainda não estava no emprego dos sonhos, e eu sabia que, muito em breve, teria de arrumar trabalho pra poder pagar faculdade. Ou pra comprar um carro.

Mamãe tinha modo peculiar de valorizar a fala. Ela iniciou assunto, fez pausa, saboreou demoradamente o resto do café, e só então retornou à conversa. Enquanto falava, levantou-se, lavou a xícara, secou as mãos no pano da louça e virou-se de volta pra mim, permanecendo encostada no balcão da pia. Então contou tudo até o fim.

Foi curioso ouvir mamãe falar sobre aquilo. No começo sua voz parecia cansada, depois foi ficando leve, sem o peso da obrigação de representar e, por fim, adquiriu o tom que só as vozes sinceras alcançam. Como eu já disse, foi curioso saber que minha mãe, em algum lugar do passado, apreciava detalhes nos olhares, paixões inconsequentes e intenções que fatalmente dariam erradas. Era outra mãe que agora se apresentava. Que vivera outra vida, da qual eu nada sabia. Permaneci quieto. Larguei o velho Nokia 1221 sobre a mesa, levantei, andei devagar até a geladeira e retirei de lá uma garrafa de tinto. Embora tivéssemos combinação de não beber em casa nos dias úteis, eu sabia que não haveria objeções.  De fato, não houve, ao contrário, mamãe buscou duas taças no armário e me alcançou uma.

Sentamos de novo ao redor da mesa. As taças lado a lado bem ao centro. Eu as tingi com o vinho, depois repousei a garrafa. Ela segurou minhas mãos sobre a mesa e assim ficamos por um tempo. De algum modo o ar gelado da noite entrou na casa me abraçando num triste calafrio. Mamãe olhava através de mim, decerto voltando ao passado, talvez revendo instantes, quem sabe, saboreado tudo outra vez. Eu sempre gostei mais de pensar do que de falar, mas, naquele momento, não consegui formular nenhum pensamento e, muito menos, dizer qualquer algo. Depois mamãe levantou-se, não tocou na bebida nem disse nada, mas eu sabia que ela estava indo dormir. Aquela foi a primeira e última vez que tocamos no assunto. E aquele tinha sido, sem dúvida, o mais amargo dos vinhos que eu já provei. Até esse instante, aqui, em tua frente.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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