O casal de mentira, por Inge Dienstmann

Leia o artigo da jornalista Inge Dienstmann.

O casal de mentira

Eles sempre me pareceram ter um algo diferente que os destacava, já enquanto individuais, muito antes de se encontrarem como casal. Em comum, nesta fase em que ainda não se conheciam , eu identificava nos dois o alto astral, a apreciação do belo, o gosto e a facilidade de estabelecer relações duradouras, com base na cordialidade, na aceitação do diverso, enfim, na vocação para ser feliz.

Nem lembro qual deles conheci primeiro. Carlos, paulista de nascimento, teve um brechó em Porto Alegre, onde os artigos se destacavam pela beleza, originalidade e conservação das peças, além daquele papo cativante com os clientes. Mas também foi, entre outras atividades, comprador de moda de um destacado magazine do interior gaúcho. Nas duas atividades, encontra-se em comum um necessário e apurado senso estético.

Marlete nasceu no interior gaúcho, e eu a conheci trabalhando numa loja de fábrica no segmento de calçados femininos de luxo. Do alto de saltos estratosféricos, sobre os quais ela flutuava com invejável segurança, a morena linda se revelava uma cativante vendedora, convencendo as clientes de que também elas haviam nascido para pilotar, com graça e sensualidade, um salto 15 agulha, ou mesmo um modelo com plataformas que duplicavam esta altura. Simpática e observadora, ela ia direto ao ponto que desperta o desejo de consumo em uma mulher, ou a benevolência de maridos nem sempre dispostos a pagar pelo luxo dos sapatos que ela vendia na loja que gerenciou por anos.

Um dia os caminhos de Carlos e Marlete se cruzaram. Se me contaram como foi, não lembro, nem se torna relevante aqui. O fato é que ambos vinham de relacionamentos anteriores desfeitos, e Carlos acabou por conquistar a morena que resistia, mas que foi arrebatada diante da paixão que ele derramava a seus pés e estendia para ela feito tapete vermelho. Mas, segundo Marlete, o que a convenceu mesmo de dar a Carlos uma chance de coroá-la como sua rainha, foi o jeito leve e apaixonado com que ele encarava a  vida; o jeito desbragado de declarar seu amor e, por fim, a promessa mútua de que fariam de tudo para a relação dar certo e ser perene.

Poisé! Hoje eu sei disso tudo porque a vida me conduziu a conviver mais de perto com eles, que são absolutamente originais no seu modo de levar a vida. Vale dizer aqui, como prova, que eles tem um iguana como bicho de estimação, presente de Carlos, que hoje Marlete tem como seu eterno bebê. Filhos, por sinal, ambos já tinham de suas relações anteriores, e assim se mantêm. Cada qual revela grande amor e cumplicidade com os filhos, mantendo-se muito próximos deles, embora morem distante dos pais.

Por falar em morar, o casal vive em Salvador. Eta terra que combina com eles para ter uma base, embora sejam cidadãos do mundo. Estão sempre viajando por lugares diferenciados, com bagagem leve, especialmente neste ano que elegeram como sabático, enquanto repensam rumos para novos negócios. Agora mesmo estão ultimando preparativos para velejar com amigos em destino internacional.

Até pouco tempo atrás, eram sócios de umas três pousadas na exótica Morro se São Paulo, que venderam para alçar novos voos. Antes disso tiveram, no interior gaúcho, uma panquecaria e uma casa noturna com o sugestivo nome Liverpool.

Em Morro de São Paulo, eu cheguei a encontrá-los morando com muita simplicidade num espaço pequeno e sem grandes confortos. Hoje residem num apartamento em Salvador, decorado com muito bom gosto e priorizando o conforto, com uma sacada que se escancara para o badalado bairro do Rio Vermelho, e com uma vista para o mar, que não vou nem tentar descrever.
Poisé! Aqui é que entra o casal de mentira. A relação deles, há muito tempo, é tão original e bonita de ver, que até parecia ter algo de falso e teatral aos nossos olhos incrédulos, acostumados a amores que não atravessam estações.

Então! Por esta generosidade que caracteriza a ambos na relação com as pessoas, fui convidada a passar uns dias no apartamento do casal em Salvador.
Logo testemunhei que aquela relação deles, que lá no passado já me pareceu surreal, agora se revelava ainda mais bonita. Carlos elogia Marlete a todo momento… Marlete cobre Carlos de carinhosos cuidados!

Eu capitulei, não pode ser fake, ninguém joga para a torcida tão bem e por tanto tempo, sem se trair numa rusga, um olhar de mágoa… Mas, a prova definitiva de que este não é um casal de mentira, me veio quando descobri que eles só possuem uma única chave do apartamento: porque estão sempre juntos, ou porque um deles saiu, mas já vai voltar correndo pros braços do amor. Que Todos os Santos e Orixás da Bahia protejam, abençoem e multipliquem relações assim! Axé, casais de verdade!

Inge Dienstmann
Jornalista, de Taquara
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