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O cheiro do alho, por Krishna Grandi

O cheiro do alho

E a minha teoria sobre o creme para as mãos.

Tudo começou quando mãos criaram dedos. E assim, podia-se pintar as unhas. Mas não mais que isso, podia-se também, cortar alho. O alho, por natureza, tem o que definimos como cheiro marcante. E aqui deixo uma ressalva, impregnante.

Há quem goste e ache estimulante, por isso, muitos optam por estudar gastronomia. Outras criaturas, um pouco mais insossas, não ligam, de fato. Entretanto, contudo, todavia, porém, há de existir os enérgicos, inovadores e revoltados com o cheiro do alho. E a culpa dessa revolta, é de uma mulher chamada Cátia*.

Cátia, uma donzela como outra qualquer. Dona da vida que criou e que por ventura tinha suas paixões. Entre elas, cozinhar. Ninguém comeria alho cru. Exceto, quem vos escreve, adoro. Cátia, é o que importa. Francesa, bem vestida. Século antes do segundo milênio.

Na era em que perfumes eram comercializados para estimular olfatos prejudicados com a falta de banho diário, surgiu ela, Cátia, em uma loja de conveniências. Singela, sorriu para o atendente e perguntou:

-Preciso de um perfume para as minhas mãos.

Atônito, o atendente a chamou de louca e ordenou que voltasse para casa. Pois bem, como fez. Obstinada a conseguir o que queria, enviou uma carta para um de seus amantes. Responsável por criar produtos químicos numa boutique à la française, atendeu suas exigências e, afirmando com a cabeça, concordou com a inovação.

Que grande tiro no pé. O amante, às pressas de entregar para sua querida, nossa Cátia, a fórmula secreta da loção de amor, esqueceu de um pequeno detalhe. O porquê. Eis que chega à casa dela. Na cozinha, de avental, preparando uma refeição. Panelas ao fogo, mesa exposta. Faca na mão. Alho picado na tábua. Corpo caído ao chão. Tubo rosado nua.

Cátia recolhe o tubo. Abre e o espreme até que uma consistência cheirosa espirra em sua mão. Olhou para a sobremesa. Creme. Mesma cor, mesma consistência. Mesmo aroma. Creme. O creme para as mãos. Feliz, Cátia os esfrega até os pulsos. Livre. Com carne para um mês, com alho para temperar. Sem se preocupar com o cheiro. O cheiro do alho.

Claro que essa história da origem para o creme das mãos é de muito tempo atrás. De fato, o atendente havia reconhecido a Serial Killer de um dos retratos falados expostos nos muros da cidade. E por isso a minha suspeita de que ele havia agido daquela forma. Deselegante, de qualquer maneira. Mas o que importa mesmo, é que essa bravura, obstinação e conquista inovadora dessa mulher Cátia, que resultou em um dos produtos mais populares em bolsas de mulheres atualmente: o creme para as mãos.

Para assim, quando formos deitar com o amor ao lado, acariciando o belo rosto que repousa sobre os travesseiros, haja a marca de uma história. A fragrância sublime que permeia e coloca cada um no seu lugar.

*Nota da autora: Cátia é um nome fictício para não revelar a real identidade dos envolvidos nessa entrevista imaginária.

Por Krishna Grandi
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