O conhecimento realmente útil, por Rafael Tourinho Raymundo

Leia a coluna do jornalista Rafael Tourinho Ramundo no site do Jornal Panorama.

O conhecimento realmente útil

O governo federal já deixou claro que não quer saber de Ciências Humanas. O importante, dizem o presidente da República e o ministro da Educação, é ensinar um ofício que gere renda.

Acontece que ninguém sabe como será o mercado de trabalho no futuro. A tecnologia vem eliminando empregos. Basta observar a automatização da indústria, que dispensa mão de obra braçal. A tendência é que esse cenário se intensifique, nos próximos anos.

Em contrapartida, novos postos também surgem. Uma ocupação como a de gestor de mídias sociais era impensável dez anos atrás. Atualmente, porém, há pessoas que ganham a vida gerenciando páginas corporativas no Facebook e no Instagram.

Frente a tantas transformações, sabe-se que um curso profissionalizante ou uma faculdade não garantem mais a carreira de ninguém. É preciso evoluir junto com a Economia. Isso significa atualizar-se durante a vida toda: dominar novos softwares, desenvolver outras habilidades e reciclar o conhecimento defasado.

A parte técnica, muitas vezes, se aprimora no dia a dia da labuta. O desafio maior está nas competências indispensáveis, aquelas que são desenvolvidas desde a base. É justamente aí que a escola demonstra sua relevância.

Um relatório do Banco Mundial, divulgado no fim de 2018, versa sobre a natureza mutável do trabalho. O documento identifica quais são as aptidões que os jovens precisam aprender hoje para se dar bem amanhã, independentemente do ramo de atuação que seguirem.

Por exemplo, espera-se que os futuros profissionais tenham pensamento crítico. Eles devem avaliar prós e contras de uma situação para resolver problemas complexos. A Filosofia pode colaborar nesse aspecto.

Outras características a serem avaliadas nas dinâmicas de grupo são as competências interpessoais, como a empatia e o espírito de colaboração. Isso porque as demandas do mundo globalizado requerem equipes multidisciplinares, quando não multinacionais. O indivíduo terá que compreender as diferenças do outro para atingir um objetivo. Trata-se, bem dizer, de um exercício de Sociologia.

Ainda, a busca incessante pela inovação exigirá cada vez mais criatividade de um funcionário. Será necessário ter sensibilidade para notar as carências da clientela, assim como imaginação para propor soluções sustentáveis. Pois uma boa aula de Artes talvez seja uma das maneiras mais efetivas de instigar esse modelo de pensamento “fora da caixa”.

Tecnologias revolucionam e se tornam obsoletas. Negócios surgem e vão à falência. Apenas a cultura permanece.

Portanto, as ditas Humanidades são o alicerce sobre o qual se constrói qualquer futuro que queiramos vislumbrar. Elas não invalidam a importância da Matemática ou da Biologia, mas se mostram tão essenciais quanto. Até o mercado reconhece isso. Falta o poder público aprender a lição.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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