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O Covid-19 e seca no Rio Grande do Sul, por Victor Fernandez Nascimento e Dilani Silveira Bassan

O COVID-19 E SECA NO RIO GRANDE DO SUL

A Região Sul do Brasil vem sofrendo por meses consecutivos com chuvas abaixo da média climatológica, e, mais recentemente, desde início de 2020, com os casos de Covid-19, ambos causando diversos problemas econômicos.

Por um lado, a seca no Rio Grande do Sul tem três grandes impactos: o primeiro é na agricultura; o segundo é no abastecimento urbano de água; e o terceiro é na geração de energia hidroelétrica. Desde 2019, tem-se observado falta de chuvas, o que resultou na redução das vazões dos rios, as quais, nos últimos meses, têm apresentado valores em torno dos mínimos históricos, causando uma severa diminuição do nível dos reservatórios e, consequentemente, impactos no abastecimento de água e na geração de energia elétrica, principalmente. Por exemplo, na bacia do Rio Jacuí, a média de vazão afluente foi 75 m³/s, representando 39% da média histórica do mês de maio, e o armazenamento, no dia 31 de maio de 2020, atingiu 32%, o menor nível para esse período, impactando, consequentemente, a geração de energia hidroelétrica na UHE Passo Real (Figura 1). Além disso, diversos municípios de várias regiões do estado também tiveram o abastecimento de água afetado, como Caçapava do Sul, Garibaldi, Nova Petrópolis e Santa Cruz do Sul, sendo necessário que a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) tomasse algumas medidas para garantir o abastecimento de água, como uso de caminhões-pipa e perfuração de novos poços para captação de água subterrânea.

Figura 1 – Índice de seca para os estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo e região Sul em maio de 2020. Destaque para as bacias de drenagem das usinas hidrelétricas Itaipu (polígono preto), Passo Real (polígono verde) e Segredo (polígono rosa). Fonte (Cemaden, 2020).

Na agricultura, para grande parte dos municípios do Rio Grande do Sul, esses impactos foram ainda maiores. De acordo com o boletim de impactos e secas para o Brasil, publicado pelo Cemaden em junho de 2020, identificou-se que, mesmo que a intensidade da seca no estado tenha diminuído com as chuvas que aconteceram no mês de maio, ainda assim 184 municípios tiveram, pelo menos, 40% de sua área impactada por esse fenômeno, como pode ser observado na (Figura 2).

Figura 2– Municípios com pelo menos 40% de área impactada pela seca (considerando área de imóvel do CAR – minifúndio, pequena propriedade e média propriedade) referente ao mês de maio de 2020. Fonte (Cemaden, 2020).

Como pode ser visto na Figura 2, o estado do RS é o mais impactado pela seca, e isso tem uma relação direta na produção agrícola, principalmente na de sequeiro, que não utiliza a irrigação. Conforme dados da Emater/RS-Ascar, o cultivo da soja já foi 100% colhido, com perdas na produção de 45,8% em relação ao esperado. Também ocorreram perdas significativas na produtividade do milho nas regiões de Santa Maria, Pelotas, dentre outras.

Assim como as projeções para os meses seguintes relacionadas ao Covid não são muito boas, as previsões meteorológicas, devido a um suposto efeito La Niña, indicam que as chuvas no Rio Grande do Sul, durante os meses de junho, julho e agosto, permanecerão escassas.

A pandemia do Covid-19 tem impactado vários setores da economia, e isso pode ser observado por meio dos indicadores econômicos, que vêm apresentando queda em seus resultados. O primeiro impacto recai sobre o PIB (Produto Interno Bruto), que representa o total da produção das atividades econômicas. O resultado para o Brasil, no primeiro trimestre de 2020, foi uma retração 0,3% (IBGE, 2020).

Ao observar em separado os setores da indústria, comércio e serviços, a queda nos números foi geral. Dados sobre a produção industrial no Brasil mostram que, em março de 2020, a retração era de 9,0%, chegando a 18,8% em abril, valores considerados elevados para uma atividade de grande potencial de produção e empregabilidade. No ano de 2020, a indústria já acumula perdas de 8,2% (IBGE, 2020).

Devido ao fechamento total de setores do comércio, como vestuário, restaurantes, pequenos estabelecimentos, e ao atendimento à população restrito aos setores essenciais, como supermercados e farmácias, o ramo de comércio, que possui uma frequência na compra de produtos, somou perdas de 16,8 em abril de 2020, as quais, no acumulado do 1º trimestre, chegam a -3,0%. Para uma economia que estava em processo de recuperação, essas perdas são significativas (IBGE, 2020).

O setor de serviços também foi impactado, pois o “lockdown” fez com que o trabalho se tornasse remoto, levando as cidades ao fechamento de escolas e universidades, ao cancelamento de eventos públicos, à restrição e ao cancelamento de viagens internacionais, bem como das atividades ligadas ao turismo, acumulando uma retração de 11,7% em abril de 2020, totalizando perdas de 4,5% no ano.

Esse cenário de retração que atinge a maioria dos setores econômicos reflete diretamente na arrecadação de impostos, tanto pelo governo federal como pelos estaduais e municipais. A projeção feita pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) calcula perdas em torno de 30%, dependendo do tempo em que a economia brasileira permanecer fechada. Isso representa valores entre R$ 700 bilhões e R$ 1 trilhão, se a situação de fechamento da economia permanecer até julho de 2020.

Por último, o setor da agricultura, mais especificamente a agricultura familiar, que, mesmo representando o setor de alimentos, teve impedido o funcionamento de feiras-livres, podendo os hortifrútis serem apenas comercializados em supermercados. Conforme o Ministério da Agricultura, os setores que sofreram maiores impactos foram os de produção de flores, hortifrútis, leite, pesca, sendo o de hortaliças impactado pelo fechamento de restaurantes. Os produtores de flores e plantas ornamentais tiveram perdas em torno de 90% no seu faturamento; por não serem considerados essenciais, sua comercialização foi restringida.

Conforme dados do IBGE, 15 milhões de pessoas trabalham em estabelecimentos agropecuários no Brasil, sendo que 10 milhões de trabalhadores estão na agricultura familiar, responsáveis pela produção de alimentos. No Brasil, 80% dos estabelecimentos agropecuários eram de agricultura familiar, propriedades de pequeno porte que utilizam metade da força de trabalho familiar (CENSO AGROPECUÁRIO, 2017).

O setor agrícola, que vem sofrendo com a escassez de chuvas, encara um novo inimigo, o Covid-19. O prejuízo com a seca e a pandemia fez com que o governo federal definisse políticas de assistência à agricultura familiar. Em abril de 2020, o governo federal destinou 500 milhões ao PAA (Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar), importante na comercialização e segurança alimentar. Esse valor foi considerado insuficiente, pois deveria ser de aproximadamente R$ 1 bilhão, conforme entidades ligadas ao setor. Foram liberados, a partir de maio, R$ 220 milhões, e o restante está ainda sem previsão (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, 2020).

Considerando a importância da agricultura familiar na produção de alimentos, o governo federal lançou o Plano Safra 2020/2021, beneficiando a agricultura familiar por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – Pronaf, crédito com taxas de juros que variam de 2,75% a 4% a.a. e prazo de 3 anos para pagamento. Esse crédito vem auxiliar na compra de insumos, na comercialização da produção e demais investimentos necessários à produção (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, 2020).

O Covid-19, o fechamento de grandes redes comerciais e a dificuldade nas exportações de grãos têm impactado negativamente o setor do agronegócio. O Brasil é grande produtor de soja, milho, arroz, carne, entre outros produtos para exportação. A valorização do dólar, nos últimos meses, tem mantido o preço dos produtos agrícolas aquecido. De acordo com a Emater, houve um aumento nos preços das sacas de soja (25%), milho (37%) e arroz (26%) em relação ao ano de 2019. Em relação ao Rio Grande do Sul, mesmo com a seca, a projeção é que a produção de arroz atinja 7,7 milhões de toneladas em 2020.

No entanto, também como consequência da valorização do dólar, ocorre o aumento tanto do preço dos insumos como do frete, projetando a elevação de preços nos produtos da safra de 2021. Pode-se, dessa forma, afirmar que a agricultura, mesmo diante da pandemia e da seca, ainda tem recebido uma certa atenção dos governos, por ser essencial, principalmente, no fornecimento de alimentos à população.

O resultado da retração nos setores econômicos em função da pandemia de Covid-19 e da seca traz como consequência a queda nas vagas de emprego. O Brasil, que já vinha com taxas elevadas de desemprego, 11% no 4º trimestre de 2019, chegou a 12,2% no 1º trimestre de 2020, representando 12,9 milhões de desempregados. No Rio Grande do Sul, a taxa ficou em 19,3% no 1º trimestre de 2020, o que significa que 504 mil trabalhadores estavam à procura de emprego no estado.

A situação de saúde ditada pela pandemia de Covid-19 não parece próxima do fim, mas políticas públicas de atendimento aos setores econômicos devem ser pensadas, pois, no futuro, o desemprego e a queda acentuada nos indicadores econômicos podem resultar em uma recessão econômica nunca antes vivida pelo Brasil.

Fontes:

IBGE. https://www.ibge.gov.br/indicadores.html, 2020.

CEMADEN. Boletim de Impactos em Atividades Estratégicas para o Brasil – junho de 2020. [S. l.: s. n.].

CENSO AGROPECUÁRIO 2017. Disponível em: https://censos.ibge.gov.br/agro/2017/.

EMATER. Disponível em: http://www.emater.tche.br/site/.

MAPA. Disponível em:  https://www.gov.br/pt-br/orgaos/ministerio-da-agricultura-pecuaria-e-abastecimento, 2020.

Victor Fernandez Nascimento
Geógrafo, Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional das Faculdades Integradas de Taquara – FACCAT

Dilani Silveira Bassan
Economista, Professora Doutora do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional das Faculdades Integradas de Taquara – FACCAT