O Facebook e as redes sociais não são produtos jornalísticos, por Vinicius Linden

Em um cenário de mudanças aceleradas na comunicação, a imprensa profissional tem aumentado, significativamente, o combate às notícias falsas. A Associação Gaúcha das Emissoras de Rádio e Televisão (Agert) tem uma campanha distribuída a todas as emissoras do estado em que alerta os ouvintes sobre a importância da produção de conteúdo qualificado, que segue princípios jornalísticos. Há duas semanas, o programa Fantástico, da TV Globo, mostrou uma reportagem impressionante sobre como se massificam notícias falsas na rede. É um debate que, muitas vezes, o cidadão comum não faz. No Panorama, mostramos, em janeiro, como um simples site divulgava notícias falsas relacionadas a municípios aqui do Vale do Paranhana – e muita gente saiu espalhando essa notícia pela rede.

O Facebook está no centro da polêmica envolvendo notícias falsas desde a eleição americana. Há suspeitas de que a rede foi usada para espalhar informações erradas que levaram à vitória de Donald Trump. Até complô envolvendo a Rússia é especulado. Na última quinta-feira (8), a revista Science divulgou uma pesquisa feita por membros do MIT (Massachussets Institute Of Technology), nos Estados Unidos, sobre a proliferação de notícias falsas. O UOL fez matéria a respeito – vale ler! A conclusão foi de que as “fake news” espalham-se pelas redes sociais de forma mais rápida e mais ampla do que as notícias reais. E, ao contrário do que afirmou a matéria do Fantástico, que citei no início deste texto, o principal motor não seriam os robôs criados por especialistas na profusão de inverdades. Segundo o estudo do MIT, as próprias pessoas, levadas por sentimentos de surpresa, repulsa e medo compartilham essas informações de forma abundante.

Um comportamento não muito incomum. Quantas vezes navegando pelo Facebook não apareceu para você aquele post suspeito? Muitos duvidam das informações. Mas, muitos, confiam! Isso acontece porque está se dando muito crédito à informação postada na rede social. O Facebook e as redes são um instrumento valioso de profusão de notícias. Não podem ser desprezados. Confiar absolutamente neles, porém, não. Os jornalistas estão dedicando tanto espaço a esse debate sobre as notícias falsas justamente por isso. O trabalho de apuração é baseado em contatar a fonte para certificar-se da narrativa relacionada ao fato, estabelecer o contraditório, se necessário, contextualizar o que será reportado. Isso não pode ser desvalorizado.

Não se prega aqui o abandono ao Facebook e as demais redes. O que elas fazem no dia a dia, ao estabelecer relações e, até mesmo, debate sobre os fatos de uma sociedade é importante. Agora, não se pode confiar às redes um papel que elas não têm, de produção de conteúdo jornalístico. O Facebook não é jornal. Sua base é a contribuição do público. Nos veículos, o público é o ponto de partida para uma apuração séria, com base em diversos preceitos éticos que devem ser seguidos, para assegurar um conteúdo mais verdadeiro possível à realidade do fato a ser divulgado, com espaço ao contraditório e à contextualização. Esse debate das “fake news” pode estimular uma dica saudável: na dúvida, quando estiver no Facebook, certifique-se das informações conferindo as páginas na rede dos veículos sérios de imprensa. Praticamente todos estão por lá – e produzindo conteúdo jornalístico confiável.

Por Vinicius Linden
Jornalista – Editor do Panorama e apresentador da Rádio Taquara