O fim do mundo, por Plínio Zíngano

Leia a coluna "Penso, Logo Insisto", assinada pelo professor Plínio Dias Zíngano.

Do “Meu cinicário” – Tão injusta quanto a demissão do técnico de um time de futebol por mau desempenho da equipe, é a permanência dos jogadores.

O fim do mundo

 Havia uma figura de muito sucesso no imaginário popular, principalmente, nos meios jornalísticos impressos até, talvez, uns 20 anos atrás. É um cartum, mostrando um homem, à maneira daquilo usado como arquétipo de um profeta: ele vestia uma toga branca, andava descalço, tinha cabelos compridos e desgrenhados e barba descuidada; enfim, caracterizando, graficamente, uma pessoa vivendo à margem da sociedade normal. Sei, descrever alguém assim, e colocá-lo numa sociedade dita “normal”, pode parecer bem incorreto. Mas como tudo que falamos ou escrevemos, nestes tempos bicudos, passou a sofrer esse tipo de patrulhamento, vou continuar com a descrição do meu personagem.

           Esse homem estava sempre caminhando pelas ruas, olhar insano focado no horizonte, mesmo quando o horizonte estava próximo, como se poderia imaginar dentro de uma cidade. Ele sempre carregava ao ombro uma vara comprida com um cartaz aterrorizante pregado na extremidade superior: “o fim está próximo”! Implícito, o dito “fim” se referia ao fim do mundo!

           Classifiquei de aterrorizante o aviso, porque, dependendo do estado de espírito de quem o lesse, poderia causar-lhe um incontrolável estado de pânico. Cada um imaginaria o fim que mais sofrimento lhe infligisse. De qualquer forma, como escrevi acima, o profeta entrou para o imaginário popular, muito ajudado pelo sarcasmo dos cartunistas, geniais ao captaram a bobagem e o ridículo de tal mensagem! Mas, interessante, é o tipo de situação recorrente na saga humana. O mundo já “acabou”, ao longo da História registrada, mais de 150 vezes, se levarmos em conta as previsões de o “fim está próximo”.

           Porém a gente não aprende, né verdade? Na maioria das vezes, esse tipo de previsão englobava algum aspecto religioso. Era um chamado ao arrependimento (embora eu jamais entendesse arrependimento de quê?). Entretanto, a coisa  refinou-se. Como, ainda que a contragosto de muita gente, nós evoluímos para situações mais exotéricas e, consequentemente, menos esotéricas, agora, os avisos vêm baseados em fatos, ditos científicos, apesar da falta de evidências… científicas. Isso dá ensejo de alguns nababos aumentarem suas fortunas com o pavor do fim do mundo. O homem de toga e cabelos desgrenhados foi substituído por uma frágil menininha, que não diz mais “o fim está próximo”! Seu bordão é “como vocês ousaram?”. E a menininha indignada, uma pobre adolescente militante pró salvação do meio ambiente, indicada ao Prêmio Nobel da Paz(!!!!), circula pelo mundo em caras viagens patrocinadas por esses ultra-milionários espertalhões.

           É a nossa vez de perguntar: como vocês ousam?

Por Plínio Dias Zíngano
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