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O grande Malayan, por Doralino Di Souza

O grande Malayan

Fez aquilo a vida inteira. Com os pais, no começo, depois, quando eles se foram, continuou. Nunca pensou que fosse sina, destino ou qualquer nome que se dê a isso. Simplesmente seguiu fazendo. Amava mais que tudo. Era fantástico ver o sorriso das crianças, os aplausos, ouvir seu nome ovacionado, correr pelo picadeiro e realizar mais uma apresentação. Toda gente queria vê-lo. Ele, o malabarista do circo. Sempre atração aguardada com enorme expectativa em cada cidade. E tantas foram as cidades onde se apresentou.

Só que o circo deu pra minguar. A chegada às cidades e vilarejos já não causava a euforia de outrora. O público parecia querer outros espetáculos. Ou não queria espetáculo algum. Depois algumas cidades passaram a evitar o circo. Alegavam não haver local pra instalação das tendas e lonas, ou que a legislação não permitia. Tudo minguando mais e mais.

Um dia o circo deixou de existir. Os animais foram sendo abandonados pelas estradas. E os artistas também. Ele se viu fazendo seus truques e exibindo suas técnicas em feiras e churrascarias. Todavia, os frequentadores desses lugares nem se importavam com sua habilidade em manipular aqueles objetos em pleno ar. Aplausos, quase nada.

As feiras e churrascarias também resolveram que a arte do malabarista estava ultrapassada. Se soubesse outros truques, talvez mágica, ou música, mas aí teria que ser dupla, deveria tentar um desses shows humorísticos que estão na moda, os stand up. Sim! Algo desse gênero sempre atrai público, mesmo que só apresente bobagens. Evidente que não aceitou. Ele era malabarista. A vida toda fora e continuará sendo. Malabarista.

Então passou a se apresentar na rua, nas esquinas, nos sinais. Feito os saltimbancos e palhaços da idade média. Fazia seu espetáculo em troca de algumas moedas jogadas das janelas dos carros. O show adaptado para o tempo que o sinal se mantém fechado. A plateia, muitas vezes, finge não ver, disfarça o olhar, se atenta nas cores da sinaleira, olha para o lado.

Porém, todo dia ele está lá. Durante alguns segundos o artista apresenta-se em toda sua grandeza. O corpo gasto pelos anos limita movimentos extravagantes e arriscados. Ainda assim, é show impecável. Ele é disciplinado e único. Ele é Malayan, o grande malabarista. Sempre foi. Sempre será.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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