O homem do fundo, por Doralino Souza

Tempo Contado

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Souza, de Igrejinha.

O homem do fundo

Foi num domingo de manhã. Passou rapidamente os olhos pelo jornal, mas não se ateve em nenhuma notícia,examinou sem vontade os pães e geleia dispostos sobre a mesa desde a véspera, levantou-se da cadeira e saiu pela porta da cozinha. Resolveu ir ao quintal.Trazia esperança de que os filhos e netos viriam visitá-lo.Ao se aproximar da piscina teve a nítida impressão de que alguém nadava, fazendo a água se agitar. Chegou perto. Não avistou ninguém. Só que a água estava turva. Observou o fundo,mas o fundo não estava lá. Sentiu calafrios. Prestou atenção. Fixou os olhos aonde deveria ser a base azul da piscina. Enxergou uma profundidade infinita. E viu um rosto nas profundezas. Deu dois passos para trás. Apreensivo. Olhou de novo. Mesma coisa. Retornou rápido para dentro de casa.

Ligou pro filho que morava em outra cidade e contou o ocorrido. Narrou com riqueza de detalhes, enfatizando a agonia e o medo crescentes. Do outro lado da linha, o filho, que parecia estar acordando, pigarreou, riu sem vontade, e disse que o pai, decerto, havia sonhado. Depois desligou. O velho permaneceu por alguns minutos sentado na beira da cadeira, telefone ainda na mão. Em seguidadevolveu o aparelho ao gancho. Caminhou resignado de volta à piscina.A água continuava agitada. Formava pequenas ondas que arrebentavam contra a lateral de fibra, fazendo saltar respingos para os lados.

Se aproximou negaciando com certo temor. A turbidez na água era maior. Um redemoinho se formava no centro. Resíduos de algas e outras sujeiras boiavam na superfície. Ele se apavorou. De novo a certeza de que viu alguém mergulhando no fundo da piscina. Correu na pressa que a idade permitia para dentro de casa. Ligou novamente pro filho. Contou esbaforido. Desta vez o filho não escutou e foi ríspido com o pai. Chamou de caduco e questionou se o homem não estavabêbado. Desligou. As palavras ficaram martelando dentro. Feriram. “O Marcelo sabe que não bebo, não mais”, murmurou para si. Desde a morte de Lucélia que não bebia. Há mais de década. Como o tempo passa, se pegou ponderando sobre isso. Encarou a imagem de velho refletida no espelho dependurado na parede. 

Achou por bem ligar para a filha. Discou o número. Ninguém atendia. Enquanto esperava fitou os porta-retratos sobre a cristaleira. Eram fotos de tempos atrás. De quando Lucélia estava viva. Quando a casa era viva também e os finais de semana eram de festa.No entanto, Lucélia morreu, e lentamente tudo foi morrendo. A ligação caiu. A filha deve estar viajando, pensou. É sempre tão ocupada. Nunca consegue tempo nem para visitar nem para ligar.

Regressou à beira da piscina. Agachou-se, apoiou as duas mãos na borda. Água aos poucos ficando cristalina e serena. O fundo estava onde deveria estar. De repente ouviuum agitar de águas. Olhou pro lado tentando flagrar. Não obteve êxito. Olhou para extremidade oposta. Ainda havia borbulhas. Levantou-sedeterminado. Retirou a jaqueta. A calça. O chinelo. Jogou-se na piscina. Mergulhou olhando para todos os lados à procura. Tateou as bordas. Apalpou o fundo, depois imaginou que deveria ficar quieto. À espreita. Quem sabe assim, conseguiria surpreender.

Acomodou-se no cantinho, perto da escadinha, onde as crianças costumavam subir e descer fazendo a maior algazarra. Ali sentou-se. As pernas esticadas. Os braços, também esticados. Firmou as mãos contra o fundo duro e frio. Ficou imóvel. Mantinha olhos aberto, dessa vez não iria deixar escapar. Olhou para cima, e mesmo debaixo d’água, viu um céu muito azul com nuvens formando um aglomerado de faces sorridentes. Compreendeu tudo, enfim. Daí não viu mais nada.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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