O homem na estrada, por Doralino Di Souza

Tempo Contado

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

O homem na estrada

Passava do meio dia. Ele vinha pela estrada de chão batido. A barba muito grande, roupa empoeirada, o andar rápido. Falava sozinho enquanto gesticulava com as mãos. Sim! É um louco, decerto. Meia dúzia de pessoas, sentadas sob as sombras dos plátanos, em frente ao velho armazém do seu Ciro, olhavam o homem, enquanto esperavam. Afinal, era sabido que não se deve capinar nem roçar de barriga cheia. Já que tinham recém esvaziados suas panelas de arroz com feijão e alguns pedaços de carne, aquela gente esperava. Algumas cochilavam estendidas na grama, outras, conversavam sobre a roça e a chuva de verão, que não tarda, vai cair. E outras, apenas esperavam a comida baixar. Todavia, nenhuma delas, deixou de notar o homem na estrada, que só podia mesmo ser um louco.

Seu Ciro, o dono da venda, costumava contar, entre uma canastra e outra, exatamente ali, debaixo das plataneiras, que aquela era estrada de gente louca. Uma estrada afastada da cidade. Quase deserta. Perfeita para isso.  “É o governo, ele manda soltar esses loucos, os hospícios ficam lotados e não existe verba pra comprar remédio pro tratamento, eu já vi o carro largando-os, lá, depois da curva do rio, junto aos taquarais”. O homem, de fato, é um louco.

Conforme se aproximava, ouviu-se que não era conversa, sim, uma cantoria. “Cantar enquanto caminha, bem coisa de louco.”  O homem olhou para as gentes, sorriu, não parecia infeliz. Como é que pode estar feliz? Se entre eles, os bons da cabeça, há tanta infelicidade. Tantos olhares de expressões tristes. O homem cumprimentou a todos, “Bons dias, senhores!” e emendou, “Posso desfrutar dessa sombra por um tempo?”. As gentes se olharam, não se deve contrariar um louco. Concordaram depressa. E o homem jogou-se no gramado, encostando-se ao tronco da árvore. As pernas esticadas num bom descanso.

O homem tirou um cigarro do bolso da camisa, buscou no bolso da calça jeans uma caixa de fósforos, riscou, acendeu o cigarro e ficou fumando. Soltava a fumaça pra cima, bem devagar, e cantarolava feito quem passeia no lugar mais lindo ou descansa no lugar mais calmo e perfeito. As pessoas observavam quietas. Lá pelas tantas, alguém disse que estava na hora de ir, pois perigava chover. Juntaram enxadas e foices e facões, puseram suas botas de borrachas nos pés e chapéus nas cabeças. Pegaram suas trouxas com panelas e garrafas d’água e saíram estrada afora.

Ainda ouviam a canção assoviada quando um deles voltou-se para trás e olhou por sobre o ombro. O homem deitado, assoviava movimentando as mãos para o céu, verdadeiro maestro duma orquestra invisível. “Pobre diabo, louquinho de pedra, nem sabe o que faz em cima da terra.” E voltou o olhar para frente. Tinham ainda muita estrada. Muito sol. Muito suor.

 

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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