O impacto da arte, por Rafael Tourinho Raymundo

Leia a coluna do jornalista Rafael Tourinho Ramundo no site do Jornal Panorama.

O impacto da arte

Poucas sensações são equiparáveis a ver, de perto, uma obra de arte. Falo isso e lembro-me de quando me deparei com Os Retirantes, quadro de Portinari, numa visita ao MASP, em São Paulo. Eu já conhecia a pintura pelos livros, mas tê-la à minha frente era outra conversa. O semblante cadavérico dos personagens, o céu em tons de roxo e chumbo, as proporções gigantescas da tela: todos esses elementos eram pensados para causar impacto no espectador. Naquele instante, a representação do artista para a fome e a miséria se tornava muito mais vívida para mim.

Diversos autores tratam de questões relacionadas à fruição estética. No célebre ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, o filósofo Walter Benjamin argumenta que o objeto artístico tem uma aura – e que ela se perde quando a peça original passa a ser reproduzida em larga escala. Não pretendo entrar em discussões acadêmicas aqui, mas este é um fato: nenhuma fotografia digital em alta resolução consegue transmitir as cores, as texturas e o brilho um quadro como Os Retirantes. Estudá-lo é possível inclusive pela internet (vide o link no parágrafo anterior). Porém, sempre se perde um pouco da experiência que o pintor quis transmitir.

É por isso que, numa recente viagem ao Velho Continente, fiz questão de investir boa parte do meu tempo em museus. Eu queria contemplar os trabalhos que, até então, só vira em páginas impressas ou em slides nas aulas da faculdade. Eu precisava entender o que fazia os originais de Da Vinci, Monet e Van Gogh serem tão representativos para a cultura ocidental. Bem, o resultado foi maior do que eu esperava. Tive que segurar as lágrimas algumas vezes, tamanha a emoção de encarar o acervo.

Quando eu era pequeno em Taquara, a turma da quarta série fazia uma excursão ao Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, para conferir as botas do gigante. Tratava-se de um exemplo pitoresco da história local, bastante atrativo para estudantes de dez anos de idade. Ainda assim, reconheço que um par de calçados avantajados não mudou os rumos do pensamento da sociedade.

Anos se passaram e, agora, eu estava numa galeria centenária, em meio às obras mais icônicas de nosso tempo. E, ao meu lado, uma turma de crianças fazia uma visita guiada ao local. A monitora explicava quais foram as tintas usadas na tela, o que as cores representavam, qual era o sentido daqueles desenhos na época em que foram feitos. A gurizada acompanhava com os olhos curiosos.

Pensei na sorte daqueles meninos e meninas. Eles tinham à disposição um material tão rico! Mesmo que não venham a ser grandes admiradores das artes plásticas, esses jovens já estão adquirindo um vasto capital cultural. É conhecimento para entender os povos do passado, para compreender outros modos de expressão e para, assim, encarar o mundo com mais sensibilidade.

Teria sido um privilégio visitar aquele museu da Europa aos dez anos de idade. Lembrei-me do meu país, da falta de investimento em educação, do descaso com a cultura. Tentei imaginar quantos milhares de estudantes estão se formando sem ter a oportunidade de serem impactados por um Rembrandt, um Klimt ou um Portinari.

Pode parecer egoísta, mas isso apenas me fez dar ainda mais valor àquele momento. Continuei meu passeio, carregando a esperança de que mais pessoas possam viver a experiência que vivi.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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