O povo e o país, por Plínio Zíngano

Leia a coluna "Penso, Logo Insisto", assinada pelo professor Plínio Dias Zíngano.

Do “Meu cinicário” – Perdão, Freud, mas, de erro em erro, não se descobre toda a verdade. Ao contrário, descobrem-se todas as mentiras. E se apanham os bandidos!

O povo e o país

Numa das esquinas de Taquara, à frente de um consultório de psicologia, existe, na calçada, uma arara (dessas de loja, não a ave) com várias peças de roupa penduradas. Na parte sob a arara, uma caixa onde se veem sapatos. Todas as peças já foram usadas. Imagino, alguém as doou e a empresa, num gesto louvável, põe à disposição de pessoas necessitadas. Esse procedimento já foi feito por um supermercado há alguns anos. Fica dentro daquela linha de pensamento de “não uso mais, mas para alguém pode servir”. É um serviço gratuito. Ninguém está controlando – em tese – quem vai apanhar uma peça, ou mais de uma, e levar. Falo que “em tese” ninguém está controlando, porque, no supermercado, assisti a um funcionário da empresa impedindo uma mulher idosa de pegar algumas peças, dizendo: “ontem a senhora já pegou!”. Ignoro se era alguma regra sendo transgredida.

Vez ou outra, vemos esse tipo de situação, apenas mudando a oferta. Já vi oferta de livros em Parobé. Os exemplares ficavam nas praças e podiam ser levados espontaneamente, por empréstimo, sem qualquer burocracia. A única condição era serem devolvidos à praça depois de lidos. Não foi muito adiante. Acho que a evolução dos telefones celulares, cada vez mais, criou um obstáculo sociológico à leitura de livros físicos. O e-book está vencendo a luta. E isto não é feio! Afinal, ninguém, hoje em dia, leria rolos de papiro ou pergaminhos. A mídia mudou! O importante, para muitos, e eu me incluo nesses muitos, é a leitura (tem gente que dá pouca importância para essa bobagem – e chega à presidência da república, vejam só).

Esta reflexão me surge quando releio um texto nos meus arquivos, relatando situação ocorrida em Estocolmo, a capital do nosso atual país mais amado, a Suécia, cidade natal da mais amada ainda Greta Thunberg, a adolescente do “como ousam”. Conta o redator da nota do seu espanto ao entrar na estação do metrô e passar por uma catraca onde era necessário o bilhete pago, enquanto, ao lado, havia outra com passagem livre, porém vazia. Segundo seu relato, a segunda catraca era para atender a quem, eventualmente, não tivesse como pagar a passagem. Espanto maior foi o do seu interlocutor diante da pergunta mais lógica do mundo: “e por que pagam, então?”.

Embora a conclusão da nota fosse desabonadora à nacionalidade do escritor dela, um brasileiro, numa característica atitude de autopiedade diante da “superioridade” sueca, discordei dele. É diferente das situações relatadas no início deste comentário. Nelas, alguém poderia ganhar dinheiro revendendo os produtos doados de bom coração por terceiros. Seria exploração. No caso sueco, se a empresa transportadora quis abrir mão da passagem, estava fazendo uso de coisa sua. Como os doadores de roupas, sapatos e livros fizeram.

Por Plínio Dias Zíngano
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