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O que a quarentena muda na nossa vida, por Cassi Gottlieb

O que a quarentena muda na nossa vida

Uma nova rotina tomou conta do mundo, com a sociedade precisando se adaptar. E essa realidade ainda tenta ser entendida. Um vírus invisível aos olhos, atacou todas as esferas possíveis, mesmo as que ele não atua de forma direta. Na acessibilidade não é diferente, setor de pessoas que talvez mais tenham consciência do que é a palavra adaptação.

Temosa alegria de na coluna de hoje, trazer a palavra de uma profissional na área de fisioterapia, a professora Letícia Britto de Albuquerque. Fisioterapeuta, Mestre em Reabilitação e Inclusão. Docente da Faccat. Ela também é Supervisora dos setores de Fisioterapia e Fisioterapia AquáticaAacd.

Vamos mergulhar no trabalho que os fisioterapeutas realizam com pessoas que possuem necessidades especificas.

Olá, prof Letícia. Como se desenvolve o trabalho do fisioterapeuta no momento que atende um paciente com necessidades específicas?

Iniciamos pela avaliação fisioterapêutica que tem como objetivo conhecer as potencialidades daquele paciente, bem como sua queixa funcional que em geral, é a maior dificuldade funcional que ele apresenta no momento. A avaliação nos fornece subsídios para estruturarmos e planejarmos os objetivos que serão trabalhados a curto e médio prazo, as estratégias de atendimento e as condutas. As atividades e exercíciosque serão trabalhadas nos atendimentos são planejados de acordo com o objetivo que traçamos junto com o paciente.  As orientações (“tema de casa”), são importantes para o sucesso do tratamento pois devemos lembrar que o paciente permanece um pequeno período do dia na Fisioterapia e portanto, deve seguir se movimentando e com posicionamentos adequados em casa. As avaliações também devem ser sistemáticas, pois com a evolução do paciente, surgem novas necessidades e novos objetivos funcionais.

Quais são as maiores dificuldades enfrentadas no dia a dia por pacientes que são PCD?

Vejo na prática clínica, que infelizmente, ainda são muitas as dificuldades encontradas.A acessibilidade é um dos pontos de maior queixa dos pacientes: ruase calçadas irregulares (dificultam os deambuladores propiciando tropeços e quedas, falta de rampas de acesso para as cadeiras de rodas), transporte ( ônibus com elevador- são poucos e os horários espaçados, carros de aplicativos que não dispõe de espaço para cadeiras de rodas ), acesso a locais que disponham de estrutura para receber  os indivíduos com dificuldades físicas ( não somente o acesso, mas espaço para circulação, altura do buffet em restaurante, acesso ao banheiro), entre outros. A inclusão escolar também é outro ponto recorrente: escolas sem estrutura física para receber os pacientes (a exemplo do que falamos da acessibilidade), sem Equipe preparada para as intervenções (monitores, capacitação de professores e recursos de tecnologia assistiva que podem facilitar a inclusão dos alunos).

Pessoas que fazem fisioterapia em razão de serem portadoras de necessidades específicas, por vezes se sentem desmobilizadas em não constatar uma evolução com os trabalhos praticados. O que é possível dizer para elas?

Sempre o ideal é que a relação fisioterapeuta- paciente seja permeada na conversa e na clareza em relação aos objetivos terapêuticos e expectativas.  Para isso, é importante que o Fisioterapeuta tenha conhecimento em relação aos prognósticos funcionais, construa junto com o paciente os objetivos funcionais que serão trabalhados a curto e médio prazo que deverão estar atrelados às dificuldades do paciente e que oriente o paciente em relação a esse prognóstico, trabalhando as expectativas do mesmo.

O entendimento do paciente sobre o que está sendo trabalhado nos atendimentos fisioterapêuticos ecom qual objetivo, utilização das reavaliações com testagens em que o paciente possa verificar sua evolução (testes cronometrados, filmagens…) e as estratégias utilizadas no atendimento (repetir objetivo sem repetir os mesmos exercícios, criar situações e ambientes de desafios e motivaçãodurantes os atendimentos) facilita a compreensão e adesão ao tratamento.

Portanto, busque conversar sempre com seu Fisioterapeuta sobre suas dúvidas, sua evolução e sobre o que você pode realizar, inclusive além da Fisioterapia!

Tenho brincado neste período de quarentena, que para o PCD não está sendo tão difícil, em razão dele já estar acostumado com restrições. Existe algum aspecto em relação aos exercícios nesse período, que altera a rotina diária?

Nesse momento, não descuidar da rotina e prática dos exercícios que o fisioterapeuta orienta é imprescindível. Sabemos que não realizar os alongamentos e exercícios propiciam as aquisições secundárias, como dores, encurtamentos musculares, aumento da espasticidade, entre outros.  Esses fatores interferirão na qualidade de suas habilidades funcionais, impactando nas atividades de vida diária. Cabe ainda lembrar que existem muitas doenças que causam deficiências motoras, entre elas, doenças neuromusculares que precisam de bastante atenção em relação as questões respiratórias. Portanto, além dos exercícios motores, os exercícios visando a função respiratória e higiene brônquica merecem atenção.

Não praticar exercícios, representa quais riscos para a saúde?

Pelas dificuldades na mobilidade, pacientes com dificuldades motoras permanecem mais tempo deitados ou sentados, movimentando-se pouco e tem maiores chances de apresentarem encurtamentos musculares, deformidades, alterações vasculares, úlceras de pressão, diminuição do condicionamento físico, acometimento da função respiratória, entre outros. Portanto, realizar os alongamentos e exercícios e alternar os decúbitos estão entre as orientações importantes a serem seguidas para evitar riscos à saúde e manter uma boa qualidade de vida.

Para finalizar, a senhora tem algumas dicas de atividades físicas diárias, que cadeirantes podem fazer em casa?

Alongamentos diáriosde tronco, membros superiores e membros inferiores: Os alongamentos podem ser realizados ao acordar e ao deitar, 3x 20 segundos.

 Os exercícios passivos, ativos-assistidos, livres ou resistidos, de acordo com a indicação/ capacidade de cada um (na dúvida, fazer sem resistência), 2x 15 repetições.

Fazer sempre com segurança, variando as posturas!

Segue algumas dicas:

Alongamento de membro inferior- de barriga para cima e joelho esticado, puxar o pé em direção ao joelho. Pode usar um lençol, faixa elástica, apoiar o pé na parede ou bola grande.

Deitado de barriga para cima, ombros apoiados na cama. Fazer uma rotação com tronco, deixando as pernas “caírem “ para lateral.

Sentado ou deitado, elevar o bastão.

De barriga para cima, elevar a perna com joelho esticado. De lado, abrir a perna com joelho esticada.


De barriga para baixo, dobrar o joelho e esticar devagar, “segurando” o movimento.

De barriga para cima, apertar um rolinho (toalha).

Atividade senta-levanta: realizar de forma segura e devagar.

Por Cassiano Gottlieb, de Taquara
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