CONCURSO LITERÁRIO 2018

O que move o mundo | 1º lugar – Crônica

Confira a crônica de Douglas Márcio Kaiser, vencedora em sua categoria no Concurso Literário Faccat/Jornal Panorama.
Foto: Pixabay
1º lugar – Crônica
Título da obra: O que move o mundo
Pseudônimo do autor: Henrique Rushmore
Nome Completo do autor: Douglas Márcio Kaiser
Idade: 39
Cidade: Taquara

O que move o mundo

Henrique Rushmore

Nasci sob o signo de Peixes… Não que eu seja adepto ao Zodíaco, mas já ouvi dizerem muito que os nascidos sob este signo são sonhadores. Pode até ser, porque desde que me conheço por gente, sempre me imaginei vivendo novas experiências, alcançando diferentes desejos.

Talvez minha lembrança mais remota de algo que eu desejava muito seja a de quando eu tinha 6 anos. Recém saído de uma internação de 10 dias, devido a uma meningite, ainda não estava totalmente recuperado fisicamente (assim como o “bolso” de meus pais, que gastaram muito com despesas hospitalares). Um dos desenhos animados da época era Charlie Brown, que, por sua vez, tinha um cãozinho muito simpático chamado Snoopy. Mesmo que o marketing daquela época não fosse tão intenso quanto hoje, os bonecos da turma do Charlie Brown eram desejados pelas crianças, e eu não era uma exceção.

Sem muito dinheiro, a solução encontrada por meus pais foi comprar um pequeno Snoopy de pelúcia… Não devia ter mais de 12 centímetros. Entretanto, para mim não importava o tamanho do presente, mas sim a realização do meu desejo infantil. Na vaga, mas feliz lembrança que tenho daquele Natal, até Papai Noel dando volta com suas renas eu “lembro” de ter visto…

Não sei se os tempos mudaram, mas, na minha infância, outro desejo de dez entre nove crianças era ganhar uma bicicleta. Claro que nem sempre o sonho vinha conforme o desejado, porque novamente o fator “bolso” era determinante. Digo isso porque minha esposa me comenta que idealizava sua primeira bicicleta na cor rosa, com cestinho e tudo a que tivesse direito. Não foi bem o que ela ganhou, porque seu pai juntou uma peça aqui e outra ali e o que veio estava mais para um Frankestein. Hoje a gente ri muito da situação.

Fui uma criança realizada quando, já com melhores condições financeiras, meu pai comprou uma Caloi Berlineta azul. De uma hora para outra, me sentia “o cara”. Era uma bicicleta diferente, cheia de adesivos. O desejo das “bicicletas” ainda me acompanhou por um tempo, quando fui presenteado em minha primeira comunhão por minha madrinha. O engraçado é a história antes dessa bicicleta, porque se originou no pedido que fiz à madrinha, dizendo que precisava de uma bicicleta. Minha mãe queria cavar um buraco, porque sempre me fazia dizer que não precisava de presentes. Que ideia esdrúxula, duvido que quando mamãe era criança não gostava de ganhar presentes. Mas, vamos lá, coisa de mãe.

Passada a fase das “bicicletas”, veio a fase do vestibular, do primeiro emprego, da primeira namorada… E, com essas fases, o progresso dos sonhos, dos gostos, das preferências.

Houve uma fase em que os sonhos se tornaram grandiosos, até meio utópicos, e creio que essa fase tenha sido a fase da adolescência. Imaginava que seria um grande presidente de grande empresa, teria carros luxuosos, casas grandiosas… Não que isso não possa ser um sonho e trazer felicidade, mas, para mim, com o passar do tempo, isso mudou radicalmente.

Veio a namorada definitiva, aquela com quem fiz o casamento que sempre imaginamos, com direito à banda e muita festa. Veio a compra da casa própria, do tamanho ideal, cabendo no bolso e comportando dentro dela um casal com mais sonhos. A casa grandiosa de anos atrás cedeu espaço a uma casa onde os amigos eram e são constantes, e onde até a escada que leva ao segundo piso serve de apoio quando as cadeiras não são suficientes.

E assim, entre sonhos mais simples e outros que são utópicos, vivo hoje um novo sonho. Se até aqui as palavras vieram com facilidade, a partir deste momento já fica difícil descrever o que sinto.

É um sonho que me fez mudar radicalmente. Ouvi de muitos que seria assim, mas não acreditava. Na verdade, não é um sonho solitário, é um sonho de minha esposa também.

Da última vez que consultamos, nosso pequeno sonho estava com 22 centímetros, 480 gramas e 20 semanas de gestação. Se nosso menino não bancar o ansioso, nascerá em final de fevereiro, possivelmente sob o signo de Peixes.

Mesmo que não seja um pisciano, tenho plena certeza que virá ao mundo cheio de sonhos, de expectativas, e quero que meu filho viva tudo com intensidade. Haverá frustrações, sem dúvida. Mas o que mais desejo é que meu pequeno sempre se mantenha firme em seus propósitos.

Tenho certeza de que meus sonhos também mudarão daqui para frente. Mas eles ganham um sentido mais amplo. Quero ser feliz, quero irradiar a felicidade. Hoje vivo meu maior sonho, ser pai, ter um menino que eu possa pegar em meus braços e poder ajudá-lo a sonhar também. Sonhar com a felicidade, com um mundo melhor.

De tudo, fica uma certeza. Cada um de nós é único pela característica singular de poder sonhar. Assim será com meu filho, assim é comigo, com você. Os sonhos é que nos movem, nos impulsionam. Os sonhos é que movem o mundo. Os sonhos é que nos transformam.