Temperatura agora:   19.3 °C   [+]

O sentido além da manchete, por Rafael Tourinho Raymundo

O sentido além da manchete

Um comentário inofensivo pode ganhar proporções horrorosas, quando fora de contexto. Que o diga o narrador esportivo Everaldo Marques.

O ano era 2017 e o canal por assinatura ESPN transmitia o Super Bowl, a grande final da temporada de futebol americano. Lady Gaga fez o show de intervalo. Ao fim do espetáculo, a cantora foi ovacionada pela plateia do estádio. Everaldo elogiou: “Gaga, você é ridícula!”

Sim, tratava-se de um elogio. Quem acompanhava os jogos de futebol americano pela TV já conhecia esse bordão. Era uma maneira de dizer algo como “isso é tão bom que chega a ser ridículo”.

Porém, boa parte do público ligado na telinha não entendeu. Naquela noite, além dos admiradores de Atlanta Falcons e New England Patriots, a audiência era formada por muitos Little Monsters, como são chamados os fãs de Lady Gaga. Estavam interessados apenas na apresentação musical. Era gente que mal sabia as regras do jogo e, provavelmente, nunca ouvira Everaldo Marques ou suas brincadeiras.

Qual foi a consequência? Xingamentos de toda sorte nas redes sociais, a ponto de o apresentador ter que se explicar mais de uma vez.

Nessas horas, o incidente foge do controle. Imagine encontrar a seguinte manchete num portal de notícias: “Narrador da ESPN chama estrela pop de ridícula”. Lendo assim, friamente, parece mesmo um insulto.

Confesso que já forjei situação parecida, na época em que fui editor de um site feminino. Minha chefe havia cobrado a publicação de histórias polêmicas. Então, ao vasculhar a internet à procura de pautas, descobri uma entrevista de outra cantora: Rihanna.

Na matéria, a artista caribenha discorria sobre o visual ousado de Lady Gaga (sim, ela de novo). Falava que as roupas da colega eram incríveis, mas que, particularmente, preferia vestir peças mais simples. “Não sei se eu conseguiria andar por aí usando um vestido de presunto”, afirmou.

Pois não tive dúvidas. Aproveitei o conteúdo para redigir um post e, na hora de dar o título, optei por uma chamada capciosa. “Rihanna diz: ‘Eu não me vestiria como Lady Gaga’”. Pronto, gatilho para a confusão. Parte de mim tinha esperança de que os leitores acessassem o link e compreendessema conjuntura. Outra parta sabia que muitos não passariam da manchete e, portanto, tirariam conclusões erradas com base numa meia verdade.

Juro que nunca mais utilizei essa estratégia caça-cliques. Infelizmente, não dá para dizer o mesmo de outros veículos noticiosos. Basta lembrar de quando Fátima Bernardes, então casada com William Bonner, anunciou que deixaria o jornalismo da Globo para se dedicar ao matutino Encontro. O jornal carioca Meia Hora foi ligeiro: “Fátima abandona Bonner e vai fazer programa”, estampava a capa da edição de 1º de dezembro de 2011. O periódico não mentiu, mas recorreu a um duplo sentido que dava margem para interpretações equivocadas.

Se fica no deboche, tudo bem. O problema é que a palavra escrita tem muito peso. As pessoas levam a sério aquilo que deveria ser tratado com leveza. Tudo porque, sem contexto nem entonação da fala, um chiste parece uma alegação categórica.

Certa feita, o jornalista Geneton Moraes Neto perguntou a Marília Pêra se ela poderia dizer “não” de cinco jeitos diferentes. A negativa básica foi somenteum deles (“não.”). A atriz também inflexionou a voz para demonstrar repreensão (“nããão…”, do tipo “não faça isso”), para confirmar algo (“não?”, como quem solta um “né?”) e para exclamar desespero (“NÃÃÃÃÃO”, num grito choroso). E concluiu: “acho que há um milhão de maneiras de se dizer uma palavra”.

Não é só o que se diz, é como se diz. Por mais maravilhoso que seja o texto escrito, ainda ocorre dificuldadepara traduzir as sutilezas. Precisamos de contexto e de repertório cultural. Para tanto, temos que driblar a velocidade insana dos feeds de notícias, bem como vencer nossa preguiça de ler além do título da matéria.

Captar a mensagem dá um pouco de trabalho, mas evita atritos. Melhor entender o panorama geral que semear discórdia nos ambientes on-line.

***

Aproveitando o ensejo, deixo uma sugestão de leitura: O Tribunal da Quinta-Feira, romance de Michel Laub. A história aborda, com inteligência, os julgamentos morais precipitados da internet. Vale o investimento.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
[Leia todas as colunas]