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O sobrado, por Doralino DiSouza

O sobrado

Quando o sol tingiu de dourado as primeiras horas do dia, conformei-me, estava perdido. Após dirigir uma noite inteira, o cansaço e sonolência não me deixavam continuar. Nisso, à beira da estrada, avistei um velho sobrado. Numa placa de madeira lia-se: “Bar e Pousada”. Parei o carro. Entrei no local, já que ele estava com portas e janelas escancaradas. Lembrei-me do quanto seria bom uma xicara de café àquela hora na manhã. Apreciar um sorriso de mulher, quem sabe. Lembrei-me dessas pequenas coisas que a vida nos oferece, de vez em quando, para que a gente não perca a esperança. Só que o lugar estava vazio. Completamente abandonado. Era provável que, em outros tempos, fora um bom lugar, bom o suficiente para que as pessoas sentissem saudades quando olhassem para trás. Por algum motivo, em cima do balcão e das mesas, havia coisas esquecidas, ou abandonadas, talvez. Eram porta-retratos, livros, discos, frascos de perfumes usados até a metade, garrafas com bebidas. Louças e roupas. De repente, visualizei um homem, jovem, sentado numa cadeira junto à mesa. Ele toma um drinque, tem os olhos vermelhos de chorar e segura uma arma na mão direita. Uma mulher, também jovem, se aproxima, ela segura um bebê no colo e carrega uma mochila dependurada no ombro. Ela gesticula. Quer sair. Ele a segura pelo braço. Levanta-se furioso. A arma em punho. Tiros ecoam. Os disparos assustaram-me e trouxeram-me de volta para a realidade. Olhei ao redor, de novo estava sozinho.  

Resolvi sair dali e, assim que pisei na rua, encontrei um ônibus preto parado na estrada em frente. Olhei adiante, para um lado, para o outro, somente a imensidão do pampa. O verde dos potreiros se impondo em solidão. E a longa estrada de terra batida por onde andei, serpenteando as pequenas coxilhas. Fiquei parado, de súbito, a porta do veículo se abriu. Nenhum passageiro a bordo. Somente o condutor. Beirava a casa dos trinta anos, usava uniforme preto, quepe na cabeça, também preto. O cara, imóvel, fitava o horizonte. Então, girou pescoço em minha direção, esticou o braço, fez sinal com dedo, “Venha até aqui, por favor.” O homem falava numa voz calma, “Venha, preciso de ajuda”. Eu não estava longe do ônibus, só uns três ou quatro passos de distância. “Pegue essa carta, por favor.” disse, voz serena, mão segurando envelope. Algumas coisas a gente não entende como faz, nem o porquê e quando me dei conta, havia retirado a carta da mão do homem. (Seria algo na voz dele entrando em minha mente?).

O homem falou: “Devolva essa carta ao remetente. O endereço não mais existe, tampouco o destinatário”. Fiz que não com a cabeça, depois, em voz alta neguei ajuda. Não iria me envolver. Só que os olhos daquele sujeito me negaceavam dum modo que meu corpo inteiro pareceu paralisado. Ele voltou a falar: “Faz setenta anos que procuro pelo endereço. Setenta anos! Fique sabendo que ninguém afasta um homem do seu destino. Não há como trapacear.” A porta fechou num baque surdo, o ônibus começou a se mover devagar. O grito estridente dum pássaro negro ecoou nos campos fazendo-me desviar os olhos da estrada. O pássaro voou ao meu redor por um tempo, depois retornou aos grotões de onde havia saído. Quando voltei a olhar para a estrada, o ônibus tinha desaparecido. A carta estava em minha mão. Senti um gosto amargo na boca ao ler nome do remetente e do destinatário: Em ambos os locais, era o meu nome escrito. O vento frio assoviou sobre os potreiros gelando-me o corpo. Olhei de volta para o sobrado. Havia escuridão no seu interior e me pareceu que ele inteiro se diluía nessa escuridão, espalhando-a sobre tudo. Entrei no carro. Larguei o envelope sobre o painel, sem coragem de abrir e ler o que eu escrevera para mim. Liguei o motor, ascendi os faróis e retornei para a estrada na tentativa de achar o caminho de volta. Desde então, todas as manhãs, acabo chegando nesse mesmo sobrado.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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