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Os últimos hospedes do Hotel Paradise

Ela estava parada próximo da janela e eu a observava, deitado sobre a cama. Gostava de observá-la. Ela sabia disso e não se importava, pelo contrário, se movia com elegância e arte, numa espécie de intuição sedutora. Era um sábado calorento e já passava do meio dia. Lá fora, o céu colhia nuvens escuras aqui e acolá, diminuindo pouco a pouco sua luminosidade. Estávamos num quarto pequeno do terceiro andar e, até onde eu sabia, não havia outros hospedes. O velho hotel, na segunda-feira, fecharia as portas para sempre, o que era uma pena. Provavelmente, no passado, manteve promessas de luxo e distinção, como a arquitetura eclética com influência da colonização portuguesa do final do século XIX, no entanto, viraria, sim, um estacionamento. O porteiro do hotel, um homem dos seus sessenta anos, que trabalhara toda a vida ali e a quem a gerência incumbiu de ser o último a deixar o prédio, não aceitava mais reservas e aguardava a desocupação do local.
Ela permaneceu quieta, olhando a movimentação na rua lá embaixo e eu não a perturbei. Tenho comigo que as mulheres valorizam o homem que sabe respeitar seus silêncios. Estávamos há três horas naquele quarto, já que ela não quisera passear pela cidade, pois não conseguira repelir a incômoda sensação de que não fazíamos a coisa certa. Daí, acabamos não visitando a feira de antiguidades, nem percorremos as bancas do Mercado Público nem olhamos as livrarias, não caminhamos pela orla do Guaíba e nem bebemos sentados junto às mesinhas na Rua da Praia. Fomos direto pro hotel, onde eu me hospedara na noite anterior. Ela tinha rodado uns bons quilômetros de ônibus, desde sua cidade, no interior do Estado, para manter o encontro. No hotel nos enfiamos na cama. Vislumbrei seu corpo inteiramente nu. Os cabelos lisos e pretos que desciam bem abaixo dos ombros. Os olhos, também pretos, lembravam um lago profundo e misterioso. Os seios redondos e belos. Era de fato uma mulher bonita. Não dessas bonitezas esquálidas e artificiais. Trinta e poucos anos de uma beleza singular.
Fizemos sexo com ressalvas de amor. Algo contido, mas contínuo e ela terminou me abraçando com força, murmurando frases que não defini. Depois, caímos de costas no colchão, ofegantes e felizes. Tentávamos compreender a atmosfera daquele momento onde tudo parecia bom. Aí, ela se levantou e andou até a janela. Vestiu apenas uma camisa branca, botões abertos. Eu fiquei deitado, os braços sob a cabeça. Não conseguia não olhar para ela.
Nisso, a quietude do quarto fora interrompida por vários pingos, feito dedos fortes arranhando a vidraça, seguido duma chuva ritmada. Ela me olhou e sorriu o seu sorriso mais lindo, algo que minha retina soube capturar e emoldurar nos confins da memória para nunca mais esquecer. Voltou para cama e aninhou-se em meu peito. Depois dum tempo, perguntou quando meu livro seria publicado e se eu tinha escrito um conto para ela. Eu lhe disse que o livro iria demorar, que a editora considerou alguns contos medíocres e cismou com os nomes das personagens. Se eu fosse escritora, ela disse, minha heroína se chamaria “Ana” ou “Natalie.” Sim! Natalie é um bom nome, respondi, usarei algum dia. Depois aconteceu aquele silêncio quase constrangedor, quando um espera o outro dizer algo, mas ninguém diz nada. De súbito, ela avisou, “Nunca mais vou te ver, quero casar em breve e farei o possível pra dar certo.” Continuei calado. Ela voltou a falar, “Agora preciso visitar meu pai, foi esse o álibi pra vir até Porto Alegre.”
A chuva tornara-se um chuvisco tingindo o cinza dos prédios. Levantei-me com preguiça e busquei no frigobar a última cerveja à disposição dos clientes que, por certo, não viriam. Minutos depois, caminhávamos de braços dados pelo corredor pouco iluminado. No hall de entrada, após fechar a conta, esperamos num silêncio cúmplice. Quando o taxi apareceu, eu a vi embarcar no carro e ir embora. O hotel, exceto por mim e o porteiro, estava completamente vazio, numa penumbra fantasmagórica. Disse adeus ao homem e, antes de sair, olhei ao redor e me dei conta que a maioria das coisas nessa vida, um dia, deixa de existir.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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