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Outros tempos, por Rui Fischer

OUTROS TEMPOS

Em primeiro lugar, vou fazer um pequeno parágrafo. – Esta crônica, não é uma apologia à nenhuma ditadura, nem de direita (militar/fascista), nem de esquerda (comunista/socialista). Todos que me conhecem, sabem que sou policial aposentado(Inspetor de Polícia). Dito isso, quero me referir ao título do meu texto: “Outros Tempos”. Falo outros tempos porque, enquanto na ativa  (por 30 anos, me aposentei em 1996), grande parte dessas décadas, foram sob o regime militar dos anos setenta/oitenta do século passado. Nessa época, a autoridade das polícias era notória, não é que se podia fazer o que bem entendia. Ocorre que, nessa época, o vagabundo – como chamávamos os fora da lei – se comportavam como meras ovelhinhas perante o policial tanto civil como militar, bastava você entrar em um recinto (bar, boate, etc.), que todo mundo parava, ficava quase em posição de sentido, tal era o respeito. Certa vez, num sábado desses já ao anoitecer – era inverno -, eu e outro colega de plantão da DP, resolvemos fazer uma “operação presença” na Vila Aimoré, também conhecida como “Purgatório e, já próximo da esquina do Bar do Zé Barriga (tradicional do lugar). Aqui tenho que fazer um pequeno parágrafo: – os faróis do jipe, são próximos um do outro, uma anomalia própria dos jipes da época, indicando que seria uma viatura policial, muito comum nos carros policiais daquele tempo. A vagabundagem, a maioria composta por bandidos, ao ver a “luz policial”, tanto do facho de luz vermelha acoplado no para-lamas, como a luz do farol, iluminando lá embaixo a dita esquina, fazia com que corriam, como cordeirinhos acuados. Ao chegar no bar, descíamos da viatura e entrávamos no recinto: todo mundo paradinho em seu canto. Mandávamos todos se encostar na parede para uma revista, ao que todos obedeciam sem uma só voz de contrariedade, pedíamos para ver seus documentos e suas mãos (se eram calejadas ou se dava para notar que eram de um trabalhador…caso contrário???). Naquela época, vagabundagem, era um tipo de contravenção e, andar sem documento, também era um motivo de recolher à DP, para posterior triagem – se fosse o caso, eram mandados ao Ministério Público (MP) ou ainda, à justiça comum, caso fosse algum foragido da justiça ou portador de droga. Muito bem! Explicado a razão do título, quero abrir um parêntese: não era pelo simples motivo de vivermos uma ditadura militar, que, nós policiais passávamos do ponto por abuso de poder (ações mais ríspidas, eram comuns aos órgãos de repressão do exército), o respeito dos marginais à polícia, era uma coisa natural, subentendido pelo regime ditatorial em vigor, tipo, de noite: ” mais de dois ou três, é comício” – motivo para prisão por parte do exército, frase muito comum na época, fato este, que ultrapassou as fronteiras dos verde-oliva e ficou  “de herança” para as polícias. Agora, amigo leitor, vamos entrar nos dias de hoje: se dois policiais entram em um bar, onde comumente tem mesas de snoocker (sinuca)ou qualquer outro de jogo, de beberagem, os supostos meliantes se viram com um olhar de desprezo e nojo, como quem diz: ” o quê, que esses tiras querem aqui?”. Só falta mandar tomar naquele lugar! Aliás, um grande complicador para o trabalho policial e, muito, são essas placas veiculares do Mercosul, uma grande bobagem do governo central, imagine uma investigação policial envolvendo um carro com uma dessas placas, como faz para investigar, fazer uma pergunta a uma testemunha (…?). Olha a confusão! Mais se um policial entrar em uma boate e mandar todos encostar na parede para uma revista, o dono da casa telefona para o seu advogado que, por sua vez, aciona o MP, para informar que policiais cometeram abuso de autoridade na boate tal, ou mais, ao chegar na delegacia com os supostos marginais, seus advogados já estarão lá, antes da chagada dos policiais e dos recolhidos. Por isso, amigo leitor, se você é do bem, procure facilitar o serviço das polícias civis e militares, pois a coisa está difícil para eles, eis que, já não vivemos mais “Outros Tempos”, em que o policial era respeitado. PS: sou do tempo em que, desde quando gurizote, se aprendia a ter respeito pela polícia, uma pena que hoje, já não seja assim. Não tenho vergonha de dizer, eu já era policial e, em meados dos anos de 1980, arrumei um plantão com uma grande folga e fui viajar como vendedor para melhorar a receita doméstica e, sem ficar vermelho, quando percebia que logo ali adiante, tinha uma barreira policial …imaginem, ficava todo nervoso, isso, sem motivos, pois além de policial tarimbado, sempre andava com a documentação do carro em dia, esse era o respeito que trouxe da educação que tive em casa quando piá. Outra, comecei a trabalhar com 10/11 anos, o que, cá pra nós, não faz mal nenhum, muito pelo contrário. Trabalhar só dignifica o ser humano e, ajudar com um salário, por menor que seja, sempre será um motivo de orgulho para seus pais e a sociedade de um modo geral. Antigamente, nos anos sessenta, havia Carteira Profissional de Menor, cheguei a desgastá-la de tantos carimbos patronais que tive. Se os candidatos a marginais, hoje em dia, trabalhassem, esses candidatos que falei, não entrariam na marginalidade, o que, já seria um grande ganho para o Estado.Pensem bem, logradouros públicos sem pichações, sem pequenos furtos e golpes, sem moradores de rua…sem cracolândia. Que legal, né?!

RUI FISCHER
Aposentado Taquara