Partes de um todo, por Rafael Tourinho Raymundo

Leia artigo do jornalista Rafael Tourinho Raymundo.

Partes de um todo

O todo é maior que a soma das partes, já diziam estudiosos da corrente alemã conhecida como Gestalt. Isso significa que, quando diferentes elementos se unem, geram algo novo.

Por exemplo, as letras I-L-O-R-V são apenas letras. Porém, quando dispostas numa ordem específica, formam a palavra “livro”. Essa palavra representa um objeto. E o objeto, mais que um amontoado de páginas, é uma ferramenta para estimular a imaginação, instigar novas ideias e transformar uma sociedade.

Outro exemplo. Pegue um baterista, um baixista e um guitarrista. Separados, eles já são capazes de fazer algum som. Mas o melhor acontece quando os três se juntam numa banda. Ao tocar ao mesmo tempo, executam uma música diferente, que nenhum deles conseguiria reproduzir sem a colaboração dos parceiros.

As partes se somam e constituem algo maior que elas mesmas. É justamente isso que percebo em iniciativas da região.

Durante 2018, tive a oportunidade de participar de algumas feiras literárias e culturais no Vale do Paranhana. Escolas, prefeituras e outras entidades dos municípios encabeçam os projetos. Pude observar, na prática, que falta de recursos financeiros não é desculpa, quando sobram dedicação e vontade de colaborar.

Cada um faz a sua parte. Tem o livreiro que monta sua banca num cantinho da Rua Coberta. Tem os artistas locais que, mesmo sem o aporte de grandes editoras ou gravadoras, conversam com o público e apresentam seu trabalho. Tem a moça da Hora do Conto, entretendo as crianças enquanto os pais tomam chimarrão. Tem até a carrocinha de cachorro-quente para quando a fome aperta.

As dimensões desses eventos, bem mais modestos que uma Feira do Livro de Porto Alegre, não desqualificam a grandiosidade do objetivo de levar cultura à comunidade. Em tempos tão embrutecidos, é por meio da música, do teatro e da literatura que se pode propor alguma mudança.

Arte é entretenimento, sim, mas também é gatilho para a reflexão e para o pensamento crítico. Uma sociedade que valoriza a cultura é uma sociedade capaz de fazer escolhas melhores para seu futuro. De quebra, ainda estimula a economia local. Imagine quantos trabalhadores são necessários para montar os estandes, organizar a estrutura de palco e, claro, realizar os espetáculos.

A Feira Literária e Cultural de Taquara segue sua programação até o fim deste sábado. Ainda haverá cantoria, peça teatral e bate-papo com escritores. Tudo de graça, na Rua Coberta, para quem quiser chegar.

É um evento que renasce pequeno em tamanho, mas grande em propósito. Na eterna cidade da Ciranda, dos bailes e das festividades que não existem mais, ainda bem que nem todos lamentam as glórias de um passado perdido. Bom mesmo é enxergar o que temos de positivo no presente e projetar um amanhã ainda melhor.

Quem prestigia a feira já faz sua parte. A soma desses esforços, com certeza, gerará algo maior.

 

Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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