Passe a passa, por Plínio Zíngano

Penso, logo insisto

Leia a coluna “Penso, Logo Insisto”, assinada pelo professor Plínio Dias Zíngano.

Do “Meu cinicário” – O fato de eu não ter respostas para suas perguntas, não significa que eu deva aceitar qualquer estupidez que você der como resposta a elas.

Passe a passa

            Está bem, admito: a composição do título poderá ser qualificada de “infame”, embora a maioria dos trocadilhos seja, assim, qualificada. Se não todos. Mas é uma construção linguística da qual não podemos nos furtar quando queremos passar (epa!: de novo) por divertidos e, acima de tudo, inteligentes, mesmo sem ser. Daí o jogo de palavras característico dos trocadilhos.

            Voltando ao tema, de repente, estamos, novamente, no tempo das passas na comida. Confesso só ter-me dado conta da rejeição tão institucionalizada a esse acepipe bem recentemente. Como, para mim, sempre foi uma guloseima, daquelas de comprar em pequenos potes no supermercado, jamais me passara pela cabeça haver uma tão grande oposição a ela. Aliás, aqui, lanço uma teoria sociológica: tal sentimento é fruto (epa!, mais uma vez, trocadilho) do Facebook e de seus programas congêneres, devido ao grande poder aglutinador das opiniões neles externadas. Se, antes, a repulsa era pensamento quase íntimo, só compartilhado por um ou outro familiar ou amigo, com a publicidade maciça da internete, alcançou proporções quase de militância social. Talvez a disseminação do ódio às passas se torne algo tão opressor quanto outros pensamentos, antes aceitos como meras idiossincrasias.

            Na verdade, quando as pessoas declaram seu desgosto com as passas, a maioria está pensando na uva seca e, principalmente, na uva preta. Mas o processo de desidratação de frutas engloba a uva branca, a maçã, o damasco, o pêssego, o caqui, a banana, a ameixa, etc. Ou você nunca foi atraído por aquelas latas de ameixas pretas em calda?

            Porém contra o paladar não há argumentos. Gente comedora de miolos e testículos de animais, pés de galinha ou peixe cru se dá o democrático direito de recusar o inocente bago da fruta matriz do vinho, decantado líquido das mais intensas conquistas amorosas. Já mencionei em um dos meus comentários mais antigos, o cozinheiro Andrew Zimmern, famoso por seu programa de televisão Bizzare Foods with Andrew Zimmern filmado ao redor do mundo. Pelo “bizarro” do título, dá para imaginar as comidas aparecidas durante as apresentações (e podem acreditar: eram coisas bizarras). Pois esse corajoso, que nada refugava, praticamente vomitava ao pensar em inocentes nozes.

            Estou pensando em embarcar nesta corrente e lançar minha campanha contra a cebola. Só de pensar naquele “scritch” da mordida num pedaço do vegetal, quase me torno sócio do Andrew. Cebola, nem com passas!

Por Plínio Dias Zíngano
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