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Pequena e doce história de amor, por Doralino DiSouza

Pequena e doce história de amor

Sentaram-se junto à mesinha de ferro envelhecido, dessas quadradas e dobráveis, estava levemente enferrujada e, ao centro, a logomarca da cerveja Brahma, quase não dava para ver. Ficava na calçada, do lado de fora do bar, disposta com outras quatro mesas. Era um bar antigo, de esquina, numa pequena cidade do interior, onde as pessoas pareciam andar com mais vagar. Do outro lado da rua de paralelepípedos, está a sociedade de canto, também conhecida como o velho salão de baile. É um prédio imponente e belo, demarcando sua importância na formação da comunidade. Um pouco além, dava pra ver a torre alta da igreja luterana e o arvoredo da praça. Era perto do final do dia. E era verão.

 A garçonete trouxe cerveja e copos – ele fizera o pedido tão logo chegaram – largou sobre a mesa, entregou junto um sorriso, pouco tímido, talvez, depois retornou para dentro do bar. O cara serviu a bebida, a espuma branca subiu até as bordas, brindaram, daí ele falou sobre o calor da semana, mas ela não prestou atenção, já que duas moscas haviam pousado em cima da mesa, como se bebericassem as sobras da cerveja nos círculos úmidos deixados pelos copos. Ela buscou o celular no bolso da calça jeans e as fotografou, andava com mania de capturar os momentos, eles riram, achando aquilo a coisa mais engraçada do mundo. Pouco depois, o cara tentou emendar nova piada, entretanto a garçonete apareceu, recolheu os copos e perguntou se queriam outra bebida. O homem respondeu que não e a mulher, meio sem graça, concordou. Se alguém, naquele momento, olhasse para os dois, poderia testemunhar um casal sem nada fora do lugar. Traziam no rosto as marcas de quem extravasou vivencias, mas pareciam despreocupados quanto a isso. 

Então saíram caminhando de mãos dadas pelas ruas da cidade. Abraçaram-se, trocaram beijos, e voltaram a caminhar de mãos dadas, porque é isso que as pessoas apaixonadas fazem. Também olharam as cores nas vitrines das lojas, com a empolgação de quem vê um Edward Hopper, no caso dele, ou um Romero Britto, no caso dela, suas vozes pareciam dançarinas e não conseguiam formular nenhum som que pudesse afastá-los do estado de felicidade em que se encontravam.

Logo adiante, quando pegaram o carro, foi ela quem primeiro vasculhou a lista de músicas no Spotify. Buscava uma canção para guardar, feito tesouro, no cofre secreto das recordações, podendo acessar e reviver sempre que assim desejasse. Atravessaram a cidadezinha em baixa velocidade. Seguiram por uma estrada irregular, cortando vales e potreiros. Como o sol estava se pondo, o horizonte parecia, ao mesmo tempo, próximo e inatingível. Lá pelas tantas, ela narrou ter cruzado aquele caminho, há bastante tempo. O seu namorado da época sofrera um mal súbito e ela fora obrigada a dirigir o motorhome no qual viajavam. Recordou o enorme medo de descer o declive cheio de curvas, porém, se fizera necessário, relatou. Mas o cara já não prestava atenção na conversa dela, dentro dele um sentimento o despertara para o fato de que a vida é cíclica e, assim sendo, aquele ciclo fatalmente chegará ao fim. Quem sabe, algum dia, até possa virar um conto, ponderou. Depois reduziu a marcha do carro, porque as fortes curvas em declive se aproximavam, em seguida, abandonou o pensamento triste e, olhando para ela, voltou a sorrir. A história deles dois estava apenas começando, ele se convenceu, pois tinham pela frente todo o tempo do mundo. Ou não.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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