Temperatura agora:   25.3 °C   [+]

Pequenos Astronautas

Pequenos Astronautas

A espera pelo Natal, finalmente, chegava ao fim. Dos cinco anos de vida de Julinha, este estava sendo o mais atribulado, com a correria dos pais, que mais trabalhavam do que viviam. Dos jogos de futebol aos domingos, restavam apenas fotografias; os brinquedos em casa, provavelmente já estreavam em Toy Story, porque com Julinha não havia tempo para brincar – nem companhia. A casa havia sido transformada em dormitório, pois até as refeições passaram a ser terceirizadas: segunda, no restaurante da quadra de cima; terça, na cantina do trabalho da mamãe; quarta, na praça de alimentação do shopping; quinta, na vovó; e sexta na tradicional pizzaria. Restava o final de semana, para resgatar os cupons de desconto do Ifood.

Mas o Natal.. o Natal salvaria aquele ano. Papai e mamãe haviam prometido que Julinha ganharia o maior presente de todos os tempos, por ter sido compreensiva e renunciado as tardes de sábado no parque, duas, ou três apresentações na escola e os domingos de futebol em família. Mal surgiram os primeiros raios de sol e Julinha – que dormiu ansiosa pelo amanhecer – saltou da cama e foi adiantando as tarefas que sempre eram supervisionadas pela mãe, como escovar os dentes e cabelos, por exemplo. Bateu na porta do quarto dos pais e anunciou que era dia 24, ela já estava pronta para ir à avó, e eles deveriam se preparar para o trabalho. Assim aconteceu. E, ao contrário do que ocorreu durante todo o ano, os pais trabalharam apenas meio período.

Para Julinha, o Natal estava se tornando a melhor época do ano. Todos almoçaram juntos na avó e já alinhavaram os últimos detalhes para a ceia de Natal, que seria na própria casa da família de Julinha. A menina e os primos, não viam a hora de abrir os presentes, especialmente para brincar com a “promessa” da garota. Os pais, percebendo a expectativa, fizeram questão de destacar que haviam trabalhado muito para pagar o presente e, ainda assim, parte do valor estava parcelada no cartão de crédito. As crianças pulavam abraçadas de euforia. Nas raras vezes que se encontravam, a folia era garantida e todos compartilhavam os brinquedos e tecnologias, uns com os outros.

Já em tempo, os convidados chegaram, a ceia estava uma delícia e, aos poucos, todos se reuniram em volta da árvore de Natal para abrir os presentes. A vez de Julinha parecia não chegar nunca, e os presentes foram sendo distribuídos, até restar uma caixa enorme, à esquerda do pinheiro – pois não coube embaixo da decoração. Miguel e Joaquim, primos da menina, já roíam as unhas, esperando que aquele fosse o presente de Julinha. E era. Os pais pediram que a garota abrisse a caixa. Era uma bicicleta nova, de tamanho adequado para a idade de Julinha – já que a outra, fora de uso, não condizia mais com a garota – com todos os equipamentos de proteção e um tablet para adaptar à estrutura da bicicleta.

Julinha saltou e abraçou os pais. Agradeceu e tratou de juntar as tralhas todas para brincar com os primos. Os adultos permaneceram em torno da árvore, conversando e repassando os fatos do ano. Lá pelas tantas, a vó, preocupada com o sumiço das crianças, foi vistoriar o que os pequenos faziam. Sorriu, intrigada com a cena que flagrou. A bicicleta, e todos os equipamentos de Julinha brilhavam, estacionados na garagem, enquanto o trio de primos navegava pelo infinito, dentro de uma colorida nave espacial, desenhada na caixa de papelão que embrulhou os presentes. Espalhados, ao lado da “nave”, estavam os giz de cera que deram vida ao veículo que, sozinho, não custaria R$ 2,00.

Sem interferir na viagem dos netos, a avó ponderou que o preço do “maior presente de todos os tempos”, nunca seria páreo para o valor dos momentos em família, da imaginação e da simplicidade da comunhão. O curioso é que os adultos, embriagados pela rotina, negligenciavam a essência da vida e, talvez nunca tivessem tempo para aproveitar a pureza e encantamento dos pequenos astronautas – que cresciam feito massa de pão bem fermentada. Às gargalhadas, o trio flutuava pelo espaço, apontando estrelas e planetas, embarcados no “maior presente de todos os tempos”: a cumplicidade dos amigos e a caixa de papelão.

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
[Leia todas as colunas clicando aqui]