Perdidos, por Doralino Souza

Tempo Contado

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Souza, de Igrejinha.

Perdidos

Não havia ninguém no apartamento e estava escuro. Ela abriu a porta, entrou sem acender as luzes. Com naturalidade andou entre os móveis. Tem noção exata dos espaços e lugares. É uma vida inteira morando ali. Parou defronte a porta de vidro que dá pra sacada. Lá fora a noite segue cheia de barulhos e sombras. Suspirou desanimada a frustação do encontro. Foi um péssimo presente de Natal, aquele. Que pessoa ridícula. Conversa rasa. Piadas tortas. Elogios descabidos. Nunca mais irá marcar encontro por aplicativo. Sentiu raiva depois preguiça. Ainda precisa retirar o vestido. Sapatos. Brincos. Maquiagem. O cheiro do perfume. Com força jogou a bolsa sobre o sofá, caiu em cima do dragão eletrônico do filho. O brinquedo fez ruído, imitando um suposto rugido. Lembrou-se da criança. Estará bem? certamente que sim! O ex-marido têm muitos defeitos, ser pai relapso não é um deles.

Ele observou o filho brincando sobre o tapete da sala. A criança não esconde a tristeza. Mesmo tendo ganhado os brinquedos que pedira, permanece num muxoxo cabisbaixo. O menino disse que a nova casa do pai não tem árvore de natal, nem Papai Noel pendurado na porta. Nem panetone. O homem pediu desculpa por isso. Na verdade, não se lembrou do detalhe. Essas coisas quem cuidava era ela, a ex-mulher. É o primeiro Natal que passa longe dela. Longe de casa. Sem a decoração natalina que ela preparava com divertida dedicação. A ceia em que os dois dividiam os preparativos enquanto o menino brincava de tocaia pra flagrar o Papai Noel. O vinho entre olhares. A troca de presentes. O filho abandonou o Funko do Homem de Ferro e pediu o telefone do pai. Queria olhar vídeo. Depois disse que sentia saudade da mãe.

Ela estava na sacada, olhando, ao longe, alguns fogos de artifício colorir, por instantes, o breu noturno, e já que o filho pegou no sono, aproveitou pra fumar unzinho. Talvez isso lhe traga alívio. É a primeira virada de ano distante dele, sabe que não terá guerra de espumante, nem resoluções e metas. Nem aquele ritual quando a calcinha branca com rendas era rasgada na hora de fazer amor. A mulher achou melhor não estar entre familiares nem amigos em comum. Preferiu ficar sozinha. Tem sempre comentários ou conselhos inconvenientes. Pura ladainha. Quem de verdade sabe o que o outro está sentindo? “Ninguém, porra!” Gritou pra noite. Deu leve tragada no cigarrinho. Segurou. Soltou. Ouviu o bip no telefone. Era mensagem. Irritou-se ao visualizar. Mais um clipezinho pedindo gratidão ao Universo. “Foda-se o Universo”. Ficou olhando o telefone na mão. Que vontade de ligar. Desejar boa sorte no novo ano, quem sabe.

Ele segurou a taça de champanhe próximo à base, tomou outro gole, descansou-a na mesa e girou a haste entre os dedos. Continuou fingindo que escutava o homem sentado a sua esquerda tecer elogios fervorosos ao governo que acabou com a mamata, permitiu as famílias de bem voltar às ruas e melhorou a economia. Ele olhou pro homem uma última vez, levantou-se sem nada dizer, largou a taça na mesa, atravessou o bar e saiu pra rua. Aquela era uma noite quente e era a primeira hora do novo ano. Ele seguiu pela calçada, viu as luzes dos apartamentos nos prédios. Ouviu risadas. Imaginou se aquelas pessoas tinham suas vidas bem-arrumadas, se haviam se mantido a salvo de toda dor verdadeira, depois pensou nos amigos da faculdade que se espalharam em busca de um lugar no mundo, eram feito irmãos e de repente viraram pessoas estranhas. Andou até onde deixara o carro, não entrou, ficou encostado na lateral do veículo, no lado que dá pra rua. Sente-se perdido. Um flanelinha, pouco distante, quis se aproximar, desistiu, e voltou a dividir o trago com um velho mendigo amontoado numa pilha de papelão. Um cão saiu dum beco e passou correndo por ali. O homem murmurou pra si que terá discernimento pra lidar com a situação de modo racional, enquanto isso, seu telefone tocava sem parar, só que fora esquecido sobre a mesa no bar, e alguém, com muita destreza, o recolheu e meteu no bolso. Na tela aparecia escrito “Amor chamando”. Aí alguém o desligou.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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