Pinhão cozido – Parte III, por Doralino Di Souza

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

Pinhão cozido – Parte III

Os dias naquele tempo passavam devagar, pareciam não ter cores e o sentimento de solidão se agigantava dentro de mim. Fazia uns quatro ou cinco meses que eu morava com a dona Isaura. Era estranho. E triste. No entanto, era tudo o que eu tinha. Pensava muito na minha mãe. Nunca mais ela iria voltar. Dona Isaura me lembrava disso a cada vez que eu chorava. Então, sempre que precisava chorar, descia até perto do riacho, onde tinha uma antiga plataneira. Atrás da árvore, de cócoras, chorava baixinho enquanto espiava a pequena casa quase dependurada na beira do barranco, a chaminé fumegando, soltando cheiro de picumã no ar, o cercado de taquara, onde umas poucas galinhas esgravatavam na terra escura. A minúscula varanda. E dava pra ver um pedaço da tenda que dona Isaura chamava de Estabelecimento Comercial. Foi de lá que escutei meu nome gritado, feito prenúncio de coisa ruim.

Quando ouvi o grito, subi ligeiro pela estradinha, entre pequenos vassourais, e fui até a tenda, uns metros à frente da casa, perto da faixa de asfalto. Havia um caminhão parado em frente. Era verde. A carga estava coberta por uma lona marrom, muito suja. Tinha um homem encostado no balcão. Era um sujeito grande e gordo. Ele tomava uma coca cola na garrafa. Mantinha o pé esquerdo apoiado no caixote de tábuas, onde ficavam os abacates. Era um sapato muito preto que o homem usava, da cor do seu bigode. Ele olhou pra mim. Oferecia um sorriso cheio de falsidade. Senti um troço pesado na barriga e baixei os olhos. Deu vontade de sair correndo dali. Só que dona Isaura, do lado de dentro do estabelecimento comercial, os cotovelos roliços sobre o balcão, disse, “Vem até aqui, menina” e apontou o caminho. Era bem rente ao homem.

Me aproximei quieta. Meu olhar no sapato preto do homem. Acho que ele deve ter se movimentado um pouco, pra ficar de frente pra mim, já que retirou o pé de cima do caixote. Eu continuei olhado pro mesmo lugar, agora via apenas abacate. Escutei dona Isaura dizer, “é essa, tem apenas dez anos.” O homem nada disse. Continuei olhando os abacates. Lembrei que eram da mesma cor do caminhão. Fiquei com medo e encarei dona Isaura. Ela fez um sinal com a cabeça que na hora não entendi. Então resmungou, “olha pro moço, menina.” Obedeci. O homem ficou me analisando. Nada dizia. Tomava pequenos goles do refrigerante e me observava. Ele fazia um movimento esquisito com a boca, como se estivesse mastigando a própria língua. Tinha olheiras profundas e uma expressão desesperada que eu só iria entender tempos depois. Daí, dona Isaura disse, “pode entrar, menina” eu corri pra dentro de casa e, cheia de medo, me encolhi num canto.

Quando dona Isaura entrou na casa, já era noite. Ela estava animada. Ligou o rádio a todo volume. Abriu um garrafão de vinho e tratou de encher a caneca com o tinto. Disse que nossas vidas iriam mudar. Todavia, precisava me ensinar alguns macetes. Foi a primeira vez que ouvi as palavras, “todavia” e “macetes”. Muitas outras palavras ela me ensinaria nos próximos meses. E me ensinou a fazer contas e a conhecer o valor do dinheiro. Disse que seria útil eu aprender a usar garfo e faca e a dançar e, o mais importante, saber sentar após o termino da dança. Ela disse que eu precisaria aprender um pouco de tudo até o próximo inverno. Até a próxima temporada do pinhão.

Os meses haviam passado, lá fora o frio e neblina inebriavam aqueles dias de inverno. Era novamente temporada do pinhão. Encolhida na cama, eu só queria abrir os olhos e ver minha mãe ao meu lado. Como seria bom sentir o olhar de proteção outra vez sobre mim. Eu não tinha ideia do que iria me acontecer. Apenas sabia que o homem de expressão desesperada retornaria pra me levar pra uma nova vida. Mas, pelo que eu havia entendido das explicações de dona Isaura, achava que não seria uma vida feliz.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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