Pinhão cozido – Parte IV, por Doralino Di Souza

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

Pinhão cozido – Parte IV

Quando o sol apareceu, fazendo o dia entrar espremido pela fresta da janela, eu já estava acordada. Dona Isaura, em passos ligeiros na pequena casa, ia arrumando coisas pra levar junto em dois sacos de linho branco. A velha mulher estava quieta naquela manhã. Deu bom dia murmurado. Disse pra tomar café. Depois disse que era hora de ir. Juntou um dos sacos, pôs no ombro e saiu pra rua. Eu fiz o mesmo. Ela não olhou pra trás. Não deu adeus à sua morada. Apenas trancou a porta e seguiu em frente, costeando a estrada de asfalto. Eu fui logo após. Andamos um tempo até a parada de ônibus. Ficamos ali. Em silêncio. Eu lembrava que nunca tinha embarcado num ônibus. Só que ainda não seria daquela vez, mas isso eu não sabia.

Ouvi barulho e avistei o caminhão verde do homem de expressão desesperada subindo a serra. O caminhão parou. Ele abriu a porta e sorriu de modo estranho. Senti um calafrio. Dona Isaura deu a volta pela frente do veículo e se aproximou da janela do motorista. Eles conversaram. Ela recebeu um envelope das mãos do homem. Depois retornou e disse pra eu subir na cabine. Fiz que não com a cabeça. Quis chorar. A porta continuava aberta. O homem olhava pra mim. As duas mãos no volante e olhava pra mim. Permaneci imóvel. A velha deu um empurrão. Gritou. Obedeci. Meio sem jeito subi e sentei no estofado de couro sintético. Olhei de volta pra dona Isaura, ela continuava no mesmo lugar. Não iria entrar. Em seguida o homem esticou o braço e fechou a porta. Absorvi seu cheiro de pessoa ruim. O hálito sujo. Olhar de carniça. O caminhão iniciou movimento. Através do vidro traseiro vi dona Isaura se distanciando. Ficando cada vez menor até desaparecer por completo. Eu me encolhi sobre o assento, chorava em soluços contidos. O motor barulhava e as molas do banco rangiam e o homem assoviava uma canção horrível que eu nunca mais iria esquecer.

Jamais voltei a ver dona Isaura. Tornou-se página virada. Fragmento dum passado cheio de angústias. Com o andar dos anos compreendi que ela deve ter recebido algum dinheiro naquele dia e, decerto, tomado um ônibus pra longe daquelas misérias. Talvez tenha ido em busca de um destino mais de acordo. Ou dum passado, desses que ficam atormentando a gente. Dentro do caminhão o medo fazia presença. Daí lembrei da mãe. Da força da minha falecida mãe. A falta dela. O cuidado. Ela gostava de dizer que Deus manda o frio conforme o cobertor. Também dizia que a gente se acostuma com tudo, inclusive com a dor. O homem assoviava e, às vezes, olhava pra mim. O velho Chevrolet se arrastava por uma estrada sinuosa que cortava as montanhas e penhascos. Eu olhava praquelas lonjuras. Era tanta solidão disfarçada de verde nas copas das árvores que até dava vertigem.

Então a estrada mudou. Tínhamos subido e descido o vale cheio de morros e saído da rodovia asfaltada. Agora era estrada de chão batido atravessando potreiros numa planície sem fim. O caminhão sacolejava e dava pra sentir os pedregulhos jogados pros lados com a força dos pneus. As vezes avistava vacas pastando organizadas e, me parecia, tristes. Também passávamos por uma ou outra pessoa caminhando na estrada. Fazia muito tempo que estávamos andando quando o caminhão diminuiu a marcha. Foi parando devagar numa espécie de galpão. Tinha carros estacionados em frente, grandes janelas e portas fechadas. Um enorme letreiro. Reconheci as letras, dona Isaura havia me ensinado, mas ainda não conseguia formar as palavras. O motor silenciou. O homem disse “chegamos, vamos descer”, esticou os braços, depois disse “to morrendo de fome”. Ele saltou do veículo, deu a volta pela frente, abriu a porta, pegou minha mão e me fez descer. Fiz menção de pegar o saco com minhas coisas, mas ele disse que não precisava. Não iria usar nada daquilo.

Seguimos pelo lado do prédio. Indo por uma estradinha feita de tijolos. Ele andava rápido me fazendo quase correr, já que ia me segurando com força pelo braço. No final do caminho, parou defronte uma porta e bateu forte com o punho fechado. Ele gritou “é o Noé”, e nisso a porta se abriu. Surgiu uma mulher muito magra. Também muito alta. Cabelos pretos longos. Fumava e tinha olhos que pareciam perdidos. A mulher me olhou, depois olhou pro Noé. Fez sinal com a cabeça. Entramos. Daí ela fechou a porta. Andamos por um corredor quase escuro até luzes fortes surgirem. Era um grande salão. Homens jogavam cartas em várias mesas redondas. Copos e cinzeiros sobre as mesas. A fumaça dos cigarros se espalhava pelo lugar, assim como o cheiro das bebidas. Notei as estatuas de mulheres nuas nos cantos do salão. Aquilo me causou espanto. Era a primeira vez que via algo do tipo. O homem que lavava copos atrás dum balcão veeio até nós. Ele era grande. Usava barba. Segurou meu queixo. Virou minha cabeça prum lado, depois pro outro. Analisou meu cabelo. Meus dentes. Não falou nada. Só fez isso. Ele voltou pra junto do balcão. O motorista do Chevrolet acompanhou. A mulher magra me pegou pela mão. “Vamos?” Ela indagou. Antes que eu dissesse qualquer algo me arrastou dali. Olhei por cima do ombro e vi os dois homens rindo enquanto enchiam os copos com bebidas. Nas mesas os outros continuavam atentos às cartas. A mulher disse “Meu nome é Carmem. Qual é o seu?”. Eu não consegui responder, acho que a fumaça fez meus olhos arderem e não pude conter o choro.,

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
[Leia todas as colunas]