Pinhão cozido – Parte II, por Doralino Di Souza

Pinhão cozido – Parte 2

Minha mãe dizia que pobreza é doença, e está no sangue. Passa de pai pra filho. É destino traçado. Quem nasce pobre morre pobre. Dizia dessas coisas. Num misto de indignação e conformismo. Eu escutava calada. Enquanto andávamos, lado a lado, pela estradinha de chão batido, até a rodovia asfaltada, lá em cima do morro. Íamos carregadas com sacos de pinhão, encomenda de dona Isaura, que cozinhava e vendia aos caminhoneiros. Dona Isaura pagava com notas amassadas e sujas. Num gesto rápido minha mãe agarrava o dinheiro e guardava numa carteira de couro, depois enrolava a carteira numa sacola plástica, e segurava debaixo do braço. Ela nunca conferia o valor. Dona Isaura era proprietária duma pequena tenda de beira de estrada, mas ela chamava de “estabelecimento comercial”. Quase sempre oferecia chimarrão ou café preto com bolo de fubá, feitio dela. Quase sempre minha mãe aceitava. Acho que a mãe fazia gosto em conversar com outra pessoa. Ficávamos lá um bom tempo. Enquanto elas proseavam eu admirava os carros cruzando a faixa numa velocidade que nossa. Caminhões carregados de bois e vacas. Outros com madeiras. Ônibus. Quando algum auto parava pra comprar qualquer coisa na tenda, eu espiava a felicidade das crianças. Suas roupas. Seus dentes brancos. Ficava imaginando pra onde iam aquelas gentes. Que alegria andar bem vestida, comer coisa boa e passear com os pais.

Então a mãe dizia que era hora de ir. Antes, apontava mercadorias, e dona Isaura ia colocando num saco de pano branco. Eram sempre as mesmas coisas. Uma barra de sabão. Sal. Fósforo. Duas latas de óleo de soja. Fermento Fleischmann. Uma garrafa de cachaça Delícia. Mercúrio e pomada Minâncora. A mãe devolvia o dinheiro que tinha recebido pelo pinhão. Na despedida Dona Isaura me beijava na testa e pedia pra Deus me proteger. Eu gostava daquilo. Triste era retornar pra solidão e quietude de casa. Tão logo voltávamos pra estradinha de chão batido, que cortava os potreiros, circundando os morros, minha mãe buscava a garrafa de cachaça dentro do saco. Ela não falava nada no caminho da volta. Bebia quieta em goles longos. O olhar perdido. Havia enorme amargura dentro dela. Mas naquele tempo eu não entendia disso.

Quando cheguei na tenda de dona Isaura era quase noite. Ela recolhia as caixas de frutas e legumes pra dentro do pequeno cubículo. Parou e me olhou com ar de surpresa. Dei boa tarde, sem pedir licença, sentei num banco de madeira. Estava cansada e com fome. De supetão contei o acontecido. Que a mãe estava morta. Contei ligeiro antes do choro forte tomar conta de mim. Ela escutou sem dar um pio. Daí disse, “chora, pode chorar, isso ajuda”, depois foi terminar o que estava fazendo. Naquela noite tomei banho e vesti roupas limpas que Dona Isaura me deu. Eram roupas duma sobrinha que morou ali em tempos idos, ela comentou. Eu agradeci. A casa, de madeira, estava bem limpa. Tinha janelas de vidro. Varanda. Cozinha, sala e dois quartos. Dona Isaura era uma mulher corpulenta. Mãos e rosto roliços. Olhar que se fazia de duro, talvez pelas necessidades, e firmeza na voz, feito quem aprende a se impor pra sobreviver. Apreciava cozinhar. Enquanto cozinhava, gostava de cantar e tomar vinho. Sempre tinha um garrafão por perto.

Naquela noite, depois de comermos o aipim frito com ovo, dona Isaura buscou, numa prateleira, um aparelho quadrado, e o largou sobre a mesa. Depois girou um botão e vozes saíram de dentro da caixa. Ela me encarou, seu olhar duro deu lugar a um semblante dócil e quase infantil. “Isso é um rádio” disse, depois indagou se eu conhecia. Fiz que não com a cabeça. Ela sorriu, como se já soubesse. Aí girou noutro botão, música se fez presença. Deu mais volume. A melodia espalhou-se pela casa. Dona Isaura rodopiou o corpanzil numa desengonçada dança, enquanto a luz fraca do lampião projetava sombras estranhas nas paredes e assoalho. Pegou a caneca esmaltada com vinho, tomou um bom gole, depois sentou-se numa velha poltrona, no canto da

sala, e ali ficou, de olhos fechados. Bebendo e ouvindo a música de olhos fechados. Eu deveria ter entre nove e dez anos. Era a primeira vez que ouvia música. A primeira vez que via alguém dançar. Aquela seria a primeira vez que provaria vinho.

A mãe dizia que não devemos esperar muito das pessoas. Dizia que coisa boa nunca vem de mão beijada. Dizia, também, que a maldade, de vez em quando, se disfarça de sorrisos doces e meigos, e devemos estar preparados pra quando essa revelação, por fim, se apresentar. Naquela noite eu não lembrei desses dizeres da minha mãe. Na verdade, eu não pensei mais na minha mãe, àquela noite, até esqueci que ela estava morta. No entanto, nos dias que viriam, logo a seguir, eu iria pensar muito nisso tudo.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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