Pinhão cozido, por Doralino Di Souza

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

Pinhão cozido – Primeira parte –

Quando eu nasci era um dia estranho, minha mãe contou tempos depois. O céu, um borrão acinzentado. A garoa miúda, sem ambição de virar chuva, mal lambuzava o telhado de zinco do antigo galpão, o potreiro, de grama rala, e um pé de goiabeira que existia por ali. A velha parteira, que socorreu minha mãe, disse pra ela que meu choro foi contido, todavia, carregado de dor, depois disse que eu seria feliz. Aí ela me deitou no braço esquerdo de minha mãe, já que é ao lado do coração, e eu grudei na teta. Então foi-se embora, a mãe me disse. Só que eu acho que nunca houve parteira nenhuma. Acho que era só nós duas. Minha mãe permaneceu deitada na cama improvisada entre dois cochos, feito animal que pari e fica a lamber a cria. Quatro dias depois resolveu levantar pra buscar rumo, pra ela e pra mim.

Andamos naquelas lonjuras não sei por quantos dias até que minha mãe avistou, na encosta dum morro, quase dentro da mata, um rancho de pau a pique. Saía fumaça da chaminé, tinha uma vaca na soga e um terneiro mugindo por perto. E galinhas pelo arredor. Minha mãe bateu na porta, e um velho barbudo atendeu. Ela contou nossa história, o velho mandou entrar. A mãe fazia o serviço da casa e ajudava a cuidar dos bichos e da roça. De vez em quando se deitava com o velho. Um dia, eu estava mais grandinha, minha mãe encheu uma panela com pinhão e botou pra cozinhar. O cheiro bom de pinhão cozido evolveu a casa. O velho chegou. Sentou-se sobre a caixa de lenha. Pegou pinhão na panela. Largou na chapa, perto de onde estava sentado. Ele retirou a faca da bainha, abriu alguns, e começou a comer. Ele comia pinhão e olhava pra mim. Eu estava sentada do outro lado do fogão. O velho comia pinhão e olhava pra mim. Depois me chamou e pediu que eu sentasse em seu colo. Obedeci. Ele acariciou meu cabelo. Minhas pernas. Meu rosto. Disse que no dia seguinte eu iria com ele ajuntar pinhão, lá nos potreiros da grota. A mãe viu aquilo. Ela estava amassando o cuscuz. Não disse nada, apenas ficou olhando. Quando fui deitar minha mãe cochichou em meu ouvido, “Não sai daí, não importa o que ouça”. Mais tarde ouvi um gemido abafado. O ruído de alguma coisa arrastada. Ouvi a porta abrindo e ouvi um barulho no poço. Na manhã seguinte a mãe ordenou que eu buscasse água no riacho pra encher as tuias. Ela passou o dia destruindo a boca do poço. Ele foi completamente aterrado. O velho nunca mais apareceu.

Eu e minha mãe continuamos na casa. Ela contava do meu nascimento e da nossa vida até ali, só não falava de antes. Eu nunca soube da sua história. Sem a ajuda do velho algumas coisas ficaram difíceis. A vaca atolou num banhado e não conseguimos tirar. A coitada morreu afundando aos poucos. Os terneiros foram se extraviando a cada uivo de lobo em noite de lua. Minha mãe passou a não dormir mais. Ficava acordada vigiando. Dizia que cheiro de filha moça atrai predador. Os lobos uivavam. Quando chegava inverno era época de fartura. Tinha muitos pinheiros por lá, de modo que não faltava pinhão cozido. Até alguns porcos apareciam fuçando a terra, farejando qualquer pinhão caído. A mãe fazia armadilha e sempre pegava algum. Viravam carne, banha, torresmo, morcilha. Eu, nesse tempo já estava crescida.

Então veio a forte chuva. Começou no meio da noite, seguiu pelo dia afora e na outra noite botou mais força. Não adiantou a mãe rezar pra Santa Bárbara, nem queimar pé de arruda, nem a vela acesa pra alma da bisavó dela, que eu nem sei o nome. Água e barro e galhos de árvores esmagaram a casa, arrastando tudo. Quando acordei, o sol forte me queimava o rosto, meu corpo doía. O lugar onde era nossa casa estava virado num barral só. Nem sinal da minha mãe.

Passei dois dias procurando. Revirando o lodo, os valos e córregos, chamando seu nome. Aí surgiram os urubus, primeiro voavam em círculos, depois cavoucaram o banhado perto dum capão. Ali estava minha mãe. Enterrei a pobre. Fiz reza que ela havia ensinado. E chorei resto do

dia. Depois catei uma panela nos escombros, acendi um fogo de chão e botei pinhão pra cozinhar. A noite chegou gelada. Ouvia os lobos ao longe. O vento assobiava. Galhos estalavam. O cheiro de pinhão cozido se embrenhava pelos potreiros e matas. Eu sabia que quando surgisse o novo dia, igual minha mãe havia feito anos antes, era hora de buscar rumo.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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