Pronto, falei! – parte II


Detesto me sentir ranzinza, egoísta, e ser percebida como tal. Injusta então, nem pensar! Por..


Detesto me sentir ranzinza, egoísta, e ser percebida como tal. Injusta então, nem pensar! Por isto me abstenho muitas vezes de fazer comentários sobre coisas que me aborrecem… até que me aborreçam demais.

Outro dia escrevi protestando contra a pirataria, a picaretagem e os desvios legais nos meios de comunicação e em outras frentes que se sentiram representadas através da minha indignação. Me surpreendi até com o tanto de manifestações de apoio que recebi.

Agora voltei a me indignar com um assunto que me aborrece há bom tempo, e tortura a muitas outras pessoas também, mas que eu evito abordar de forma mais aberta, porque certamente atingirá o calo de alguém, talvez até pessoas que eu conheça superficialmente, e que me mereçam consideração.

Portanto, esclareço logo, não é absolutamente pessoal. Mas, os serviços de som de rua são uma das coisas mais inconvenientes que conheço. Primeiro porque ninguém deveria ser obrigado a ouvir gritaria na rua, mesmo que não traga dano maior. Simplesmente porque as pessoas têm direito a um certo sossego. Então, como ponto de partida, penso que este serviço nem deveria existir, porque agride o direito dos outros: daqueles que estão em suas empresas, tentando se comunicar com colegas, ou com clientes ao telefone, mas principalmente daqueles que estão em suas casas ou apartamentos, tentando usufruir do direito de descansar.

Por que estou falando disso agora? Porque noutro dia não me senti bem, o organismo pedia um descanso após o almoço. Quando estava conseguindo conciliar o sono, fui arrebatada pelo serviço de som na rua, bradando as ofertas de um estabelecimento. Já estava esgotada, e fiquei furiosa, me senti agredida, desrespeitada no meu direito de descansar. E não falo só por mim, que não sou melhor do que ninguém. Falo por todas as pessoas que, por qualquer razão, podem ou precisam dormir até mais tarde nas manhãs; por aqueles que necessitam ou merecem o direito de dormir nas primeiras horas da manhã, da tarde, ou a qualquer hora que desejarem. Falo pelos bebês e por suas mães, pois crianças não têm regularidade de sono e muitas vezes são despertadas pela invasiva ação dos serviços de som; falo também pelas pessoas em convalescência de alguma doença, e que têm o direito e a necessidade de repousar no horário que lhes aprouver.

Perguntarão: ela quer então tirar o pão da boca de quem vive disso?
Ou afirmarão: ela quer mesmo é eliminar a concorrência dos serviços de som. Pensem e digam o que quiserem, mas ninguém me convencerá de que este sistema não é invasivo, desrespeitoso e inconveniente. Ultrapassado! Antigamente se justificava nos vilarejos que não tinham nada além do serviço de som do padre. Mas hoje?

Até já sugeri a políticos conhecidos que se estude um projeto para que não sejam mais liberadas novas concessões de exploração deste tipo de serviço, e que se estipule aos licenciados um tempo – quatro, oito anos, sei lá – para a expiração deste tipo de prática. E que não se permita espaço para que um sucessor herde o direito de explorar o serviço. Trabalho cuja licença é concedida, mas não é fiscalizada, nem em seus horários, nem no volume empregado.

Não é de admirar! Se o poder público não tem recursos para coisas muito mais essenciais, vitais até, capaz que se irá fiscalizar os gritalhões da rua! Faltam professores para abrir creches, médicos para os postos públicos, fiscais para coisas muito mais relevantes, capaz que irão fiscalizar os serviços de som! Pois bem, pensar não custa dinheiro: que tal planejar o futuro, já que agora tudo é culpa da crise, do dinheiro que não vem, dos impedimentos legais, da burocracia… da incompetência. Assim, daqui a não sei quantos anos, estaríamos livres deste abuso.

A propósito: parabéns às autoridades de Parobé que finalmente estão interferindo na zoeira que enlouquecia moradores do entorno da praça central nos finais de semana.

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