Qual é a razão da ansiedade?, por Rafael Tourinho Raymundo

Leia artigo do jornalista Rafael Tourinho Raymundo.

Qual é a razão da ansiedade?

O projeto Invento Pra Pensar deu início, na última quarta-feira, a mais uma série de encontros. A cada evento, o público é convidado a refletir sobre temas de interesse coletivo. E o assunto desta temporada não poderia ser mais atual: a ansiedade.

Os organizadores Carina Daudt, Guilherme Viacava e Valderez Timmen explicaram que, à luz da Psicanálise, esse sofrimento pelo que ainda não aconteceu se traduz em angústia. Trata-se de um desconforto cada vez mais presente em nossa sociedade. O Brasil tem a população mais ansiosa e depressiva da América Latina, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Embora nem sempre identifiquemos a origem do mal-estar, podemos cogitar diversas hipóteses.

Aqui vão alguns dos meus palpites. Para início de conversa, falta exemplo positivo a ser seguido. Dois ex-presidentes foram presos por corrupção. O atual está mais preocupado em publicar obscenidades no Twitter que em propor soluções práticas para os problemas do país. As lideranças falharam em liderar.

Junta-se a isso o desemprego, que atingia mais de 12 milhões de cidadãos no fim de 2018, conforme o IBGE. A flexibilização das leis trabalhistas e a reforma da Previdência apenas agravam o quadro. Como ninguém sabe muito bem quais serão as mudanças, fica difícil imaginar o futuro. Nesse cenário de “uberização” das atividades profissionais, em que as pessoas prestam serviço por conta própria sem qualquer garantia da CLT, a maior preocupação é correr atrás de um novo “job” para pagar as contas do mês. Pensar em plano de carreira ou em aposentadoria tornam-se sonhos quase impossíveis.

Também há o medo da violência. O massacre na escola Raul Brasil, em Suzano-SP, foi mais um demonstrativo da fragilidade humana frente aos atos de gente desajustada. Em meio a essa noção tão brutal de desamparo, houve boatos de que atentados semelhantes aconteceriam na UFRGS e até em colégios do Vale do Paranhana. Não passavam de correntes de WhatsApp, mas que se espalharam feito fogo em mata seca. Na ânsia de alertar e proteger a comunidade, uns colegas repassaram a mensagem aos outros, o que alimentou a desinformação e reforçou o sentimento de insegurança.

Essas (e tantas outras) variáveis atingem cada um de nós em maior ou menor grau. Se dá para resumir tamanha complexidade, pode-se dizer que o mundo está cruel. Há uma sensação generalizada de abandono, como se as instituições não fossem capazes de prover condições para vivermos com dignidade. Sentimo-nos perdidos e estagnados. Trabalhamos demais, ganhamos pouco, os corruptos nos roubam e ainda corremos o risco de morrer num tiroteio.

A reação, então, é buscar conforto. A retomada de movimentos esotéricos, a popularização de técnicas de meditação e a ascensão de plataformas de entretenimento são possíveis reflexos da angústia de nossos tempos. Queremos respostas rápidas para as dúvidas existenciais, ou pelo menos escapes momentâneos rumo a paraísos fictícios. Enfrentar a vida real está duro demais.

A meu ver, não existem soluções fáceis para aplacar a ansiedade. O assunto tampouco se esgota no espaço desta coluna, mas os links ao longo do texto podem contribuir para desdobrar a conversa. Aliás, acredito que a reflexão e o diálogo sejam os melhores caminhos para vislumbrarmos uma saída. Entendendo o presente, conseguimos nos preparar para o futuro, mesmo sem saber como ele será.

O próximo encontro do Invento Pra Pensar ocorre no dia 10 de abril, às 19h30min, na Invento Casa Criativa, em Taquara. Será mais uma oportunidade para debater os anseios, as dores e os desejos da sociedade. Aguardarei ansios…, digo, pacientemente pela data.

Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
[Leia todas as colunas]