Quarto de pensão, por Doralino Souza

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Souza, de Igrejinha.

Quarto de pensão

Em Porto Alegre, na Riachuelo com a João Manoel. Bem naquela quadra ficava a pensão. Ali, alugara um quarto, quase grande pros poucos pertences. Tinha cama. O criado mudo. Guarda-roupas de duas portas e duas gavetas. Daqueles antigos brilhoso de cera, que a gente apoiava a mão e conseguia ver a imagem refletida nas tábuas. A cozinha era dividida com a dona. Uma senhora com ares aristocrático e roupas acabadas pelo tempo. Quase gorda, de fala mansa e sorriso pontual. Muito bem educada e discreta, diziam. Ele chegava toda segunda-feira ao entardecer, vinha direto do trabalho, deixava mochila da semana no quarto e ia pra cozinha. Preparava sanduiche e um copo de Nescau. Aproveitava a meia hora de resto em conversas com a dona, mais por gentileza e cordialidade do que interesse. E ela, a dona, quase sempre repetia as mesmas histórias, começavam alegre depois descambavam pra tristeza nostálgica. Havia também uma sala minúscula onde juntava uma cristaleira tomada de vidraçaria antiga, um sofá-cama e uma poltrona. Num canto uma vitrola e uns vinis. O tesouro da casa, comentavam.

Na sexta-feira recolhia as roupas sujas, socava tudo na mochila. Na rodoviária, antes de embarcar num semidireto, pedia um pastel de carne e uma Coca-Cola, comia de pé, encostado no balcão enquanto falava sobre o resultado do jogo do bicho com o garçom. Passava das onze da noite ele desembarcava. Sorriso na cara. Sempre sorrisos, achava que sorriso podia apequenar qualquer ranço. Ela o esperava, estava linda, ela o esperava linda. Trocavam beijos de bocas quentes. Abraçavam a saudade das noites longes e seguiam pra mais um final de semana. Andavam pela casa de pijamas. Ela se encolhia dentro do abraço dele. Faziam Waffles pra comer com gemada. Tomavam muita caipirinha e dançavam pela casa, ele, quase sempre sem camisa. Ela, quase sempre saltitante. Aqueles eram os fins de semana deles.

Só que os fins de semana deles acabavam às seis da manhã de segunda-feira. E depois dum tempo, acabaram para sempre. Parado junto a janela, do alto do edifício, ele toma seu drinque, olha a rua lá embaixo e pensa sobre isso. Não sabe exatamente o que aconteceu. Apenas acha que é porque os jovens crescem e as coisas mudam de fato. Um fim de semana já não comportava os sonhos. E os planos já não cabiam num pequeno apartamento, muito menos, num quarto de pensão. Deve ser por isso. Ele pensa. Agora está escuro lá fora e a brisa que sopra sinaliza que vai fazer frio.

Mas ele continua parado junto a janela lembrando da vida que passou. Depois daqueles fins de semana e dos dias morando na pensão houve tempos ainda mais difíceis que os aguardavam adiante. Os desejos não se combinaram mais. Houve outras mulheres pra ele e novos homens pra ela, mas naqueles fins de semana, e em determinado fim de semana em especial, os dois dançaram. Dançaram e depois ficaram bem juntos, como se aquele instante fosse durar para sempre, como se não fosse terminar na segunda-feira, às seis horas da manhã. Como se nunca fosse acabar.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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