Reflexo, por Roseli Santos

Leia artigo da jornalista Roseli Santos no site do Panorama.

Reflexo

Ando às voltas com um Tico-Tico que insiste em me acordar, dando bicadas no vidro que espelha sua própria imagem. Mal clareia o dia, e lá vem ele disposto a enfrentar o “inimigo” que vê refletido no vidro.

Ingenuamente, o pequeno pássaro pensa ver um outro ser voando naquela imagem igual a si mesmo, que também bate asas e vem em sua direção ameaçadoramente. Também pode ser que ele veja o reflexo como outra coisa, o que é difícil de saber.  O fato é que já foram tomadas providências para protege-lo dessa situação com simples sacolas plásticas, que o afastam da investida. Assim, também, somos poupados e sobrevivemos, muitas vezes, na vida real, por uma simples barreira na vidraça.

Quantas vezes você já se perguntou: “Mas por que estou passando por isto?”, sem se dar conta que, na realidade, alguém pode ter colocado uma simples sacola plástica para que você pare de enxergar o que é apenas um reflexo das suas próprias atitudes e acorde para a mudança.

Contra a vidraça, já morreram alguns sábias e, mais recentemente, um Pica-Pau de topete vermelho. Já consegui salvar uns três filhotes de sabiás ao ouvir o estouro contra o vidro a tempo de resgatá-los, ainda tontos, mas com vida para seguir voo, após um banho de água fria. A natureza segue o seu curso. O homem é o intruso nesse universo de árvores e pássaros que só querem voar, mas que são surpreendidos pela falsa imagem de si mesmos no meio do caminho.

Confusos, não se reconhecem e morrem. Assim agimos também, como seres humanos, quando não sabemos quem está refletido pela manhã no espelho. Muitas vezes, o inimigo somos nós mesmos, nos boicotando contra aquilo que desconhecemos em nós.

Alguns ainda tentarão bater com a cabeça contra o vidro espelhado e morrerão. Outros ficarão tontos e terão uma nova chance para o autoconhecimento e evoluirão. Outros, porém, nem se importarão com o que veem e seguirão voando para a vida lá fora.

Com os pássaros, tenho aprendido a ouvir mais, a me preocupar mais com quem importa, a salvar essas pequenas vidas que valem tanto ou mais do que muitos seres humanos. Como os pássaros, também podemos correr o risco de bater contra o vidro que está no meio do caminho, mas não percebemos, seja por distração ou por ignorância, mesmo.

Como pássaros, muitas vezes damos cabeçadas contra a própria imagem, com a vantagem de termos lucidez e discernimento para reparar o erro. Alguns aprendem e continuam voando, outros ficarão no chão e não se levantarão mais.

Hoje pela manhã, o Tico-Tico voltou, mas não encontrou mais o seu reflexo, impedido pelos sacos plásticos que eu e meu marido colocamos no vidro para protege-lo. Talvez tenha compreendido o que ocorreu, talvez não. A natureza segue seu curso e os animais aprendem por instinto, por tentativa e erro, sem medo de enfrentar o “inimigo” refletido na vidraça.

Já o homem anda aos tropeços, deslumbrado, por vezes, com o próprio voo, sem sair do chão. Não se reconhece e não se vê como realmente é. Nem na imagem refletida no espelho, embaçado por sua arrogância, empáfia e ganância, nem diante de seus semelhantes, também vistos como ameaças.

De cabeçada em cabeçada, a maioria tenta, acerta e erra, como os animais, mas de um modo geral, não aprende a lição. Basta conseguir bater as asas, novamente, e já parte para destruir o “inimigo” imaginário que se esconde no espelho ou simplesmente ignora todo o aprendizado e cai abatido, sem nunca ter ganhado os céus.

Portanto, não se iluda. Em tempos insanos onde imagem é tudo, principalmente nas redes sociais, nem sempre o espelho reflete aquilo que você é.

Roseli Santos
Jornalista, de Taquara
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