Repartir a Merenda


Quem me conhece sabe o quanto aprecio os prazeres do paladar, da boa mesa, do..


Quem me conhece sabe o quanto aprecio os prazeres do paladar, da boa mesa, do bem feito. Comida e coisas boas de comer.

Uma de minhas avós, de origem italiana, cozinhava maravilhosamente bem, panquecas, bolinhos de batata, um feijão e arroz de deixar estas lembranças aqui. Me ensinou a valorizar o bom azeite de oliva, os temperos e o “sazon” da comida de vó. Já a outra não trazia glamour algum na sua culinária, mas era a vó de fazer chimia no tacho e aquele pão assado no forno a lenha. E quando estávamos por perto, meus primos, minha irmã e eu, tínhamos o direito de fazer um boneco de massa de pão com olhos de feijão, ou uma prévia de pedacinhos da massa frita, antes de enfornar os demais. Hummm! Lembranças deliciosas.

Naquele tempo se levava pão com ovo ou com banana de merenda para a escola. Aquele aroma nunca mais saiu das frasqueiras e nem da memória. E se fosse comprado na venda, era no máximo um Mirabel ou Merendinha e um suco ou k-suco na garrafinha de plástico que fatalmente vazava em tudo. A professora levava a melhor, um “pirex” cheio de ambrosia enrolado em um saquinho de “matéria plástica”, e ai de quem quebrasse o pirex na volta da escola. O que, confesso, me aconteceu diversas vezes.

Já saindo do primário, quando a vergonha aparecia e as crianças começavam a fazer suas escolhas (naquele tempo… hoje nascem escolhendo) as coisas mudaram um pouco. Já se comprava cachorro quente da tia Cristina, e a glutona aqui sempre levava um lanche extra para comer em sala de aula. Nesta época estabeleci uma sociedade. Minha amigona Márcia.

De família abastada, Márcia tinha traços delicados e bons hábitos. Éramos inseparáveis e, como podem imaginar, mesmo adolescente eu já era parecida com o que sou hoje – faceira, comunicativa e sem as vergonhas dos micos desta idade. E na merenda não foi diferente.

Anos 70 e nosso “cofeebreak” era sagrado, cada uma levava um dia, e sempre a mesma coisa. Márcia levava Amanditas, imaginem, naquela época era chique e caro, eu achava demais! Mas adorava o meu também, e sem a menor cerimônia levava rapadura. Sim, e como sempre me achei criativa, variava os sabores – rapadura natural , coco queimado e a minha preferida, de coco branco. Reencontrei minha colega há pouco tempo e relembramos juntas esta nosso pequena transgressão e o grande prazer da parceria.

Esta história me faz refletir: quantas vezes não trocamos experiências por nos julgarmos aquém? Quantas vezes nos omitimos ou limitamos nossos relacionamentos por ponderar demais?
Quantas vezes não oferecemos nossa merenda por não considerá-la nobre? Ou pior, não aceitamos a do outro, por não poder retribuir à altura, ou apenas para não dever nada a ninguém?

Sei lá… posso estar viajando… mas acredito que o ato de repartir sempre é honroso e positivo. E em certos momentos da vida é exatamente o que se precisava.

Repartir a merenda é divertido e no mínimo engorda menos!

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