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Réquiem para uma mídia, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – Quando a publicidade promete mundos e fundos, você deve desconfiar para não ficar sem fundos numa viagem para o outro mundo.

RÉQUIEM PARA UMA MÍDIA

     Este título parece um tanto mórbido à primeira vista, eu sei. Mas não é minha intenção. “Réquiem” é palavra ligada à morte, pois faz parte da missa em homenagem aos falecidos, um ato litúrgico da igreja católica. Ela inicia com a expressão latina requiem aeternam, significando “repouso eterno”. Por extensão, como costuma acontecer com as manifestações linguísticas, por eufemismo, passou a significar homenagem a algo acabado.

            Ao mesmo tempo, vemos, ainda no título, a palavra “mídia”. Engana-se quem lembra, apenas, televisão, rádio e jornal, pensando, prioritariamente, em notícias. Na verdade, mídia é tudo o que serve de suporte na transmissão de uma mensagem. Nisso entram televisão, rádio, jornal, telegrama, tronco de árvore. Até o bilhete enviado ao colega durante uma prova, pedindo cola, é mídia. A origem também é o latim, mas aportuguesado do inglês pelo som, que usa o plural de medius (em latim media era uma forma plural), cujo significado é “meios”, no caso, de comunicação.

            Agora, chegamos ao fulcro da justificativa do título desta crônica. Ele é a abreviação, devido à extensão, daquele que deveria ser o nome real: O LENTO E DOLOROSO RÉQUIEM PARA UMA MÍDIA FANTÁSTICA. Convenhamos não se encaixaria aqui. Pareceria título de trabalho acadêmico!

            Falo nos livros! Eles propiciaram o mais estupendo avanço no processo civilizatório da humanidade. Ao escrever “livro”, estou me referindo ao objeto composto de papel. Sua existência só se configurou no modelo conhecido por nós a partir da invenção de Johannes Gutenberg, a prensa de tipos móveis. Textos, ideias, teorias, desenhos já eram produzidos desde a antiguidade. Até grandes locais de armazenamento houve, guardando rolos, papiros e pergaminhos – outras mídias – nas quais essas ideias eram dadas ao mundo. A escassez de exemplares, seu grande problema, foi resolvida pela produção em série permitida por Gutenberg. Porém seu aspecto se tornou obsoleto. Num livro, o importante é a mensagem e essa não mais necessita o suporte físico. Há oito anos, comprei o dicionário Houaiss, só pelo conteúdo do CD anexo. Instalei-o no computador e uso diariamente. O livro em papel (2,77 kg), novinho, está guardado sem uso.

            Enciclopédias e dicionários, como objetos de papel, foram os primeiros a tombar diante da revolução informática. Está tudo no celular. Outros tipos cairão também. As bibliotecas continuarão existindo, claro. Porém, aos poucos ficarão, somente, como registro da história da disseminação do conhecimento, exigindo, no caso das públicas altos investimentos em catalogação, higienização e segurança. Nas particulares, será o fim do grande inimigo dos alérgicos: o pó e as traças.

            Como diz o título, um lento e doloroso réquiem para uma mídia fantástica!

Por Plínio Dias Zíngano
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