Resgatando a varinha mágica, por Inge Dienstmann

Resgatando a varinha mágica

As recentes manifestações públicas, de uma parcela da população, clamando pela intervenção militar, dia destes me remeteram a um editorial que escrevi em 1989, quando o empresário Nereu Wilhelms foi eleito para o comando da prefeitura de Taquara. O título era “A varinha mágica do tio Nereu”.

Nereu, para situar os mais jovens, foi um bem sucedido empresário do ramo da indústria de alimentação. Sua empresa, a Prátika, produzia insumos para a merenda escolar, vendida em larga escala para o governo federal, e que alimentava estudantes de norte a sul deste país. Da empresa taquarense partiam diariamente jamantas de uma também pujante transportadora local, a Auto Viação Cruzeiro, carregando os produtos da Prátika.

Estas mesmas jamantas, por época do Natal, eram carregadas de ranchos e brinquedos, que a Prátika distribuía às famílias carentes junto à praça Marechal Deodoro, no centro de Taquara. Creio até que deste gesto paternal foi cunhada a expressão “tio Nereu”, o homem que fez a diferença no Natal de muitas e muitas famílias. E também porque à porta do poderoso empresário batia muita gente em busca de apoio aos mais diversos projetos – assistenciais, empresariais, políticos. A bênção do tio Nereu abria muitas portas, e a falta do seu aval podia fechar outras tantas também.

Com excelente trânsito nas altas esferas, e com poderio econômico, Nereu apoiou e fez o sucesso de muitos projetos políticos, inclusive o seu próprio, quando se elegeu prefeito de Taquara no limiar dos anos 90. Às vésperas de assumir o comando do município, havia no ar um clima de “agora sim nossos problemas serão resolvidos”. Era uma parcela de público que vislumbrava, no rico e caridoso empresário, alguém que já não precisava acrescentar nada à vida pessoal, e que poderia se dedicar exclusivamente à Prefeitura, talvez até resolver do bolso pessoal algumas reivindicações mais meritórias.

Foi então que escrevi, tentando chamar a atenção para o risco de se acreditar que Nereu Wilhems detinha uma “varinha mágica” capaz de resolver tudo e atender a todos. O administrador corporativo bem sucedido, como agente público buscou se assessorar de pessoas com base de conhecimento nas respectivas áreas da gestão de um município. Mas não era só o técnico que se buscava dele. Esperavam de Nereu o “aconchego de tio” que a todos os males dissipasse com sua varinha mágica.

Por que lembrei agora daquele meu texto sobre os supostos superpoderes do tio Nereu? É porque vejo semelhança com o fato de pleitearem atualmente uma intervenção militar. Me parece estarem imaginando que esta importante instituição nacional tenha, enrustida por baixo das fardas, a tal varinha mágica que dê jeito a toda sorte de confusão descabida a que estamos submetidos. Seria tão prático, não é mesmo? – se pudéssemos deitar em berço esplêndido e deixar que os militares tudo resolvam a custa de cerceamento de liberdades duramente conquistadas. É deste devaneio comodista e patriarcal que precisamos acordar, como nação!

Temos muito a fazer. Corrigir o que está errado, viciado, aquilo que é prejudicial à maioria em favor de poucos. E isto passa por renovação dos nossos políticos. Que venha uma nova geração deles, agora cientes de que não podem mais se locupletar pela corrupção e à sombra da impunidade. Que se corrijam as grandes distorções que reinam no Brasil, e que enchem os políticos e as instituições governamentais de regalias, à custa do sacrifício da sociedade como um todo. Regalias que estão presentes também entre as altas patentes militares, que gozam de disposições que ofendem a dignidade dos demais brasileiros, como aposentadorias discrepantes do resto dos cidadãos e pensões que jogam no ócio confortável a descendência de militares.

É! Ninguém tem auréola de santo no país em que impera a Lei de Gerson. Mas deixa que depois da Copa a gente volta a falar disso.

Inge Dienstmann
Jornalista, de Taquara
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