Ressurreição, por Doralino Di Souza

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

Ressurreição

Dentro do carro o casal ia em silêncio. Não chegava a ser constrangedor, apenas doía um pouco. Houve um tempo tão bom lá atrás, ela pensa. Quando eles sorriam, inventavam sonhos, buscavam cumplicidade. Depois tudo perdendo cor. A estranheza até na intimidade. O distanciamento no afeto. A quietude, esse, o tanto pior. E a dor por dentro, pedindo atenção mais e mais. Então o tradicional almoço de amanhã lhe veio à mente; peixe na Sexta-feira Santa. Coisa de ir sem falta, os parentes, a família, as conversas e a oração. A dor dentro se fazendo maior. Ele a olhou, sorriso pequeno e quieto. Ela devolveu o ensaio. Ele voltou a fitar a estrada. Dentro dela, a dor num crescente. Minutos depois, chegaram. Estacionou em frente ao prédio. Lugar de pouco movimento, fácil acesso, verde abundante, rua tranquila, vizinhança segura, ele ia apontando as qualidades. Empolgação, inteireza na intenção do agrado. Ela, a tentativa. Subiram as escadas, um abraço forte, o beijo.

Vai ser bom trocar de cidade. Novo lugar. Novo apartamento. Recomeço. Sim! É hora de recomeçar, devemos nos dar essa chance. Abriu a porta. Entraram. Ele andou pelos cômodos. Falou cheio de planos. Seriam eles de novo, a rotina boa no contar dos dias voltando. Ela, em olhar grande, aos poucos marejando. Ela em aflição pensativa. Ela em dor. Nisso, o pranto. As mãos num rosto de lambuzo chorado. Não! Ela não vai conseguir. Não cabe naquele espaço. Não cabe nos planos dele. Não cabe no almoço litúrgico, não cabe. Entregou-lhe um pedido de desculpa soluçado e saiu ligeira em passos fugidos.

Ele olha e a deixa ir, não intervém. Não adianta mais. Ele desiste. Está mais do que na hora de desistir. Nada de buscar um querer forçado. Apenas a vê descendo as escadas, ganhando a rua, indo. Fecha os olhos por instantes. Depois se recompõe e tenta imaginar sua vida dali pra frente, enquanto vê, através da vidraça, num céu de pouco azul, o voo solitário de algum pássaro que ele não soube definir qual a espécie, e quis pensar sobre a ave. Ela, num suspiro aliviado, retém as lágrimas. O andar ficando calmo, devagar. É atitude acertada, murmura. Não comporta metades. Nunca comportou. Não estavam juntos num todo. Não comungavam gostos. Era sufocamento. Era tempo perdido. Melhor então ela ir. Sem novas tentativas. Sem recomeço entre eles. Sem as conversas quase protocoladas. Sem almoço na Sexta-feira Santa. Apenas ressurreição, a sua.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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