Retrospectiva, por Rafael Tourinho Raymundo

Leia artigo do jornalista Rafael Tourinho Raymundo.

Retrospectiva

Fim de ano é época de retrospectiva: analisar o passado para, quem sabe, projetar o futuro. Nesse embalo, decidi rever tudo que já escrevi nesta coluna. O material deu origem ao texto a seguir. Cada parágrafo foi retirado de um artigo diferente e transcrito quase sem alterações (há links para as publicações originais).

Procurei organizar as ideias numa sequência razoavelmente lógica. Será que a brincadeira deu certo? De todo modo, ficam aqui algumas reflexões sobre o período que passou, com o desejo de que dias melhores se avizinhem. Feliz 2019!

***

Traduzir emoções em palavras é complicado. Porém, talvez nunca se tenha feito tanto isso quanto hoje em dia. Os sites de redes sociais nos convidam a publicar o que estamos pensando, ou o que está acontecendo ao redor. Sentimo-nos impelidos a participar da conversa, mesmo quando não temos muito a acrescentar.

O que está em jogo nem sempre é a mensagem em si. É a troca. É o gesto de preocupar-se com o outro e de querer estar junto. Na impossibilidade da presença física, usa-se uma imagem, uma oração ou uma música qualquer. Tanto faz. O importante é estar ali, nem que seja para um bom-dia.

Nativos digitais não se surpreendem com a instantaneidade. Para eles, o mundo é assim. Quem viveu em modo analógico e precisou adaptar-se é que sente o peso da mudança. Talvez, por isso, contemporâneos meus se tornem tão nostálgicos.

O que percebo é um constante vaivém entre um passado idílico e um futuro utópico. Quando a tecnologia nos assoberba, retomamos os costumes tribais de épocas anteriores. Quando o ambiente parece monótono demais, buscamos a velocidade e a praticidade das inovações técnicas. De todo modo, nunca estamos satisfeitos.

Eu já tive vontade de ir embora. Hoje, acho mais produtivo ficar onde estou. O Vale do Paranhana tem empreendedorismo, tem iniciativas culturais e tem ações solidárias. Ainda há muitos problemas, de fato, mas cabe aos moradores da região atuar para resolvê-los – seja por meio do voto, seja com o próprio trabalho.

As partes se somam e constituem algo maior que elas mesmas. É justamente isso que percebo em iniciativas da região. Durante 2018, tive a oportunidade de participar de algumas feiras literárias e culturais no Vale do Paranhana. Pude observar, na prática, que falta de recursos financeiros não é desculpa, quando sobram dedicação e vontade de colaborar. Claro que pode haver falhas no processo.

A margem de erro está aí, justamente, para demonstrar que nenhum prognóstico é 100% seguro. Ainda assim, é mais sensato acreditar nas informações oficiais que nas correntes de WhatsApp.

Hoje em dia, com tanta informação circulando pela rede, é cada vez mais fácil enganar a população só com fatos verídicos. Basta omitir um número, distorcer um detalhe ou tirar uma afirmação de contexto. Portanto, a apuração jornalística torna-se, mais que nunca, fundamental.

A situação se complica numa conversa cara a cara. Basta uma divergência para que os ânimos se alterem. Queremos defender argumentos que comprovem nosso ponto de vista, mas os sentimentos costumam ser mais rápidos que a razão. Falamos sem pensar. Dizemos o que não devíamos. Frente às ofensas e às mágoas resultantes, só nos resta tentar remediar a situação. “Foi da boca para fora”, arrependemo-nos.

Em tempos de pós-verdades, os indivíduos parecem cada vez mais voltados a si mesmos. Preocupados em reafirmar suas próprias convicções, não se esforçam em compreender as demandas e as intenções de outros grupos. Reduzem a diversidade a estereótipos e preconceitos. Realizam traduções malfeitas, simplórias, dignas de quem tem preguiça de pensar.

É por isso que a luta segue. O que se busca é compreensão. Até porque, quando uma pessoa entende a diversidade, ela passa a aceitá-la. Mais que isso, passa a não se importar com o que é diferente. Aí, o fato de um cara beijar rapazes soa tão insignificante quanto o fato de ele ter cabelos castanhos.

O mundo ultrapassa as fronteiras de nossas timelines. Fora das redes digitais, é impossível bloquear a alteridade. Os valores de uma época são construídos com diálogo, respeitando-se o espaço de cada um. Ou aprendemos a aceitar o outro e a debater com sensatez, ou tanto ruído soará tão inaudível quanto o silêncio.

E traduzir emoções em palavras é complicado…

Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
[Leia todas as colunas]