Sair da Matrix?, por Luiz Haiml

Leia o artigo mensal do professor Luiz Francisco Haiml.

Sair da Matrix?

Se alguém chegar para você falando assim “cara se ligue, vc tá na Matrix, tem que sair dela”, cuidado.

Esse alguém afirmará, às vezes carregado até com um certo fatalismo raivoso, que precisamos, urgentemente, abrir nossos olhos e deixarmos a Matrix, e o que isso quer dizer: significa que a realidade, na qual estamos, não é a verdadeira realidade. Nosso corpo físico, nossos pensamentos, nossas palavras, e tudo o que está ao nosso redor são ilusões. A verdadeira existência está sendo guardada de nós, nos bastidores, por detrás de pesadas cortinas.

Eu creio que essa história de deixar a Matrix não é bem assim. Se a Ilusão existe, de certa forma ela também é real. Se estamos aqui, neste tipo de realidade, onde coexistimos com o conhecido e o desconhecido que a compõem, desenvolvendo-nos nela, é por que devemos estar.

Aqui precisamos existir compreendendo que a Matrix está interrelacionada como complemento de uma única coisa, e embora não tenhamos acesso, pelo menos ainda, a certas porções dela, somos tecidos tanto por seus frágeis fios quanto pelas linhas dos carretéis que constituem o eterno.

 Não é preciso então sair da Matrix, ou, a como a chamam os hindus, dando-lhe uma representação humano-divina: Maya.

Maya ( Ilusão) é uma parte do Todo, do Tudo, é uma completitude no aspecto da existência.  Querer ignorá-la, afastar-se dela, voltar-lhe às costas, é por si só uma ilusão. Como fazer isso com algo que nos completa, que faz parte de nós, pelo menos neste momento em que estamos montados nesta estrutura de corpo físico alma e intelecto?

Existem as mais malucas teorias sobre os tipos de Matrix, e sobre quem nos “aprisiona” nelas. Embora o assunto seja bem antigo, em nossa atual era, voltou com muita relevância por causa deste filme:

No caso de tal obra, a Matrix surge por causa que as máquinas ganham inteligência e nos põem a sonhar enquanto se sustentam com a nossa energia vital ( nossa, dei spoiler). Matrix não criadas por Deus, mas por outros seres (inclusive nós humanos),  essas sim podem se tornar malignas.

O texto aqui, porém, fala da Matrix /Maya que é parte/corpo do Criador.

  Por isso, desconfiemos de quem prega, muitas vezes até com forte radicalismo, a ideia de “sair da Matrix”, como que sugerindo até que a existência em que estamos não presta, que não deve ser considerada.

Se uma parte de nós está imerso nela, se um aspecto que nos constrói é ilusório, e tal aspecto é parte de nós, pelo menos neste momento, então devemos reconhecê-lo, saber coexistir com ele, não o descartarmos totalmente.

Tudo aqui se funde, se mescla, na realidade em que estamos, matéria + energia, não é preciso a deixarmos, sairmos dela, mas trabalhar os sentidos para apurá-la,  apalpar Maya, nos tornarmos conscientes de sua porção nessa existência.

Como o Senhor disse a Arjuna:

“Eu sou o princípio mais elevado de transcendência, e não há nada superior a Mim. Tudo o que existe se apoia em minhas energias, exatamente como pérolas enfiadas num cordão.” B. Gitã (7,7)

Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
[Leia todas as colunas]