Se a vida fosse um jogo de tabuleiro, por Krishna Grandi

Espiga de milho cega

Acompanhe a coluna de Krishna Grandi, acadêmica de Publicidade e Propaganda da Faccat.

Primeiro, escolhe os jogadores. Quem iria com você nessa aventura? Normalmente, eu escolho a temática do meu jogo, nem sempre sendo tão aventuresco assim. Às vezes, é puro terror. Outras vezes é algo leve, mais zoeiro ou até mesmo mais tranquilo. Quiçá ambos, tudo junto e misturado. Agora vem a opção: Uns contra os outros ou todo mundo junto contra o tabuleiro?

Na vida, a gente mescla os dois tipos. Porque é melhor assim, por conveniência. Em certos momentos estou contra todos e sozinha, disputando o melhor espaço, precisando chegar em primeiro, acabar logo com esse patamar. Em outros, juntamos o que sabemos de melhor para vencer um desafio em comum em que todos perdem ou todos ganham. No meu caso, fomos todos juntos contra o tabuleiro. Cada um com sua habilidade extra que podia ceder uma ação para o outro. E aquele que conseguia oferecer uma ajudinha nos testes de observação e abrir os olhos para o que estava na nossa frente.Como uma boa quadrilha.

E o perigo chega. O tabuleiro não é fácil. É imprevisível, tal como a vida. Já dizia o Lovecraft, a emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo. E o que a gente faz com isso? Se não abrir a porta para o cômodo ao lado, o jogo não avança. O objetivo maior é descobrir o que está acontecendo aqui e como podemos nos livrar. Debatemos. Formulamos uma estratégia e então nos separamos. Ainda agimos como um time, mas será necessário dividir a equipe. Cada um para um lado diferente.

Com as evidências que juntamos, descobrimos o quê era o mal. Líderes malignos planejavam um ritual no quintal. Ali, perto de nós. Mas nesta altura do jogo, já aconteceu tanta coisa perturbadora que cada um começa a sentir seus efeitos. Alguns são mais resistentes, outros vão ficando insanos. E eu acabei ferida. Louco ainda pensa, mas o ferido não anda. Não vai pra frente. Deixa rastro de sangue por onde caminha. Fiz o teste pra escapar, mas com que ajuda?

Então, eu consegui a evidência principal. Aquela que poderia acabar com tudo. Mas não sou eu quem devo correr. Não sou eu quem tem essa habilidade. É hora de ceder. Passo a evidência por debaixo da porta para meu amigo. Digo para ele partir. “Fui eu quem escolheu isso, é meu destino.” Em um final dramático, há a despedida. Da gangue, eu estou ferida, uma insana, outro atordoado e um longe. Melhor assim. Volto os olhos para o culto. Preferível. Sou atacada e morro no quintal.

A boa notícia, é que um da quadrilha fugiu. Conseguiu escapar com a evidência. Venceu o jogo e conseguiu ajudar os outros dois. Exceto por mim que fico aqui servindo de adubo para as plantas. No fim, vencemos. Era a proposta desde o início. O sacrifício não era necessário. O bom de ver assim, é que: se a vida fosse mesmo um jogo de tabuleiro, teríamos a visão total do que acontece e por onde ir. O objetivo é claro, desde o princípio. Como nessa situação. Foi puro azar parar ali sozinha. Uma fatalidade.

Ainda bem que a vida não é um boardgame. Se carecesseda sorte aos dados, deteríamos de lojas especializadas na venda de mãos abençoadas. Assim a vida pode ser só a vida, de fato. Esse pacto que eu nem sei o que é direito, mas que tem lá a sua misericórdia.

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