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Seis amigos, por Jéssica Ramos

Seis amigos

Nem bem chegamos ao mundo e, sem ter consciência, carregamos conosco uma bagagem de expectativas e sentimentos, nutridos por nós ainda no ventre de nossas mães. Nos primeiros dias, atraímos todos os holofotes para nosso desenvolvimento e tratamos de nos adaptar à nova atmosfera, e também a pessoas que, na mesma intensidade, tentam nos entender e amparar. Mas, é no cair à rotina que as coisas parecem progredir e acontecer de forma natural.

As noites, que pareciam não ter fim, vão cedendo à normalidade; e os dias parecem ignorar a tudo a todos, como se cavalgassem nos cavalos do tempo – voando na velocidade da luz. Ainda assim, nos adaptamos.Criamos resistência e passamos a apreciar muitas coisas também. Num piscar de olhos, nós, que há não muito apenas balbuciávamos, empunhamos as próprias canetas e preenchemos páginas e mais páginas de um livro que mescla humor, suspense, drama e aventura.

Seguimos, colecionando momentos, absorvendo informações e construindo valores, relacionamentos.

Mas, é só com a paternidade/ maternidade que nos damos conta de quanta coisa passou despercebida. Das lacunas ocultas e espaços reservados – pela vida – para serem descobertos – única e exclusivamente – com a chegada dos filhos. É uma explosão de sentimentos. E de repente experimentamos sensações e situações sem precedentes. Nos reinventamos, redescobrimos e percebemos que talvez tenhamos sido manipulados, orientados tantas vezes.

E decidimos viver cada dia como se fosse o último. Ou, pior do que isso, negligenciamos que este pode ser o último. E todo o medo, aspiração, desconfiança se resume ao nada. E toda a aquela energia do nascimento se apaga como uma vela, num único e delicado soprar da morte. E o vazio entra em cena, respeitando apenas o espaço de tempo que registramos de fato – com tempo de qualidade, intensidade, fosse a sós, ou entre amigos, família.

E talvez esse seja o desafio da vida: entender que ser alguém capaz de amar verdadeiramente, de cativar aos que nos rodeiam com simplicidade e honestidade, torna nossa história digna da imortalidade. Ainda que materialmente pobres em vida. Ainda que mortais. Porque de nada adianta construirmos impérios e/ou conquistarmos milhares de seguidores, enquanto presentes, se não amarmos ao menos seis amigos que – em nossa falta – se disponham voluntariamente a conduzir o corpo, que nos possibilitou conhecer, imitar, construir e deixar um legado de valor, ao lugar onde zeramos o cronômetro e voltamos à matéria de nossa origem: o pó.

Apenas seis amigos.. és capaz de contá-los dentre os teus?

Jéssica Ramos

Jornalista de Taquara
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