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Sem preview

Longe é um lugar que não existe mais. Para se deslocar, basta um clique, uma palavra chave no Google e a viagem começa imediatamente, perdendo um pouco do encantamento, talvez, quando tudo já é conhecido antes mesmo de se ter partido.

Não existe a surpresa, o deslumbre diante do inusitado. Tudo já existe antes de ir e a chegada não assusta. O roteiro se cumpre por GPS e a estrada tem um fim. Nem o idioma nos afasta. Parece que tudo já foi ou pode ser desvendado, bem antes de embarcarmos para o destino escolhido.

Nenhum medo de errar o caminho, nem o cardápio, que pode ser degustado com os olhos por antecedência. Cores e sabores, cidades e praias, florestas e montanhas, castelos e pontes. Tudo está ali e ainda nem arrumamos as malas e nem fizemos o check in.

Ainda assim, o destino nem sempre dá uma prévia nas redes sociais. Sem login ou conexão, pode nos arrebatar de susto ao chegarmos naquele vilarejo escondido que ninguém comentou; naquela cascata de águas cristalinas, sem registro no mapa; naquela estradinha anônima, com as margens floridas; numa casa abandonada ou num castelo em ruínas, que podem se tornar a verdadeira viagem. Aquela que nunca foi planejada, na companhia de quem nem se imaginava e que nos devolve a humanidade da contemplação.

Coisas do andar anônimo da vida que flui, sem registro, sem preview, sem pressa, sem testemunhas do silêncio e nem do pássaro que esquecemos de fotografar porque a natureza congelou a imagem na nossa memória, cada vez mais volátil, diga-se de passagem, em momentos que se evaporam com tamanha rapidez que o agora quase nem existe, sumindo no esquecimento imediato.

Senhores passageiros, aproveitem a viagem sem medo do desconhecido. Ninguém aprende por antecipação e nem ensina sem ter tido a coragem de partir para o voo, que pode ser perto ou distante, mas que nunca é em vão. Antes a expectativa do inusitado do que a falsa segurança de já saber o percurso sem nunca ter saído do chão.