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Senhora chega aos 107 anos com histórico de bom humor e amizades

Filha Norma cuida da mãe há 12 anos. Foto: Cristiano Vargas

TAQUARA – O ditado popular “plantando é que se colhe” faz jus à história de vida de Vergilia Souza de Souza. Natural do inte­rior de São Francisco de Paula, a idosa, que completará 108 anos no dia 21 de novembro, dedicou décadas de trabalho ao campo. Mas, entre sacas de milho, feijão e outras culturas, a safra mais vultosa não veio da lavoura, mas das amizades colhidas com o carinho distribuído espontaneamente.


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A casa em que mora Vergilia, próxima ao pequeno centro da localidade de Padilha, pertence à filha Norma Kirsch e ao marido dela, Ari Kirsch. Até os 95 anos, a idosa morou sozinha. Mas, após cair da cama ao acordar e quebrar uma das pernas, mudou-se para junto da filha. O serviço na agricultura, quando mais nova, é recordado como um período difícil. “Quando eu trabalhava na roça, tinha a vida dura”, relembra a centenária.


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O local tranquilo da residência combina com o jeito sereno e a leveza de Vergilia. A vida pacata no interior é comum para ela, que casou aos 20 anos com Lidorino de Souza. O companheiro faleceu há mais de três décadas, com 74 anos. Com ele, teve 13 filhos. Norma, com 70 anos feitos recentemente, é a 12º dentre os irmãos. Os números da linhagem também são volumosos: ao total são 44 netos, 72 bisnetos, 20 trinetos e dois tetranetos. Dos cinco filhos ainda vivos, quatro moram em Taquara.

Os pais de Vergilia, Miguel de Souza e Leordina de Souza, também moravam no campo. Ela vem de família de oito irmãos, mas apenas uma, com 93 anos, ainda está viva, e mora atual­mente em Novo Hamburgo. Dos hábitos adquiridos há vários anos está o cigarro de palha, acompanhado de algumas sorvidas no chimarrão.

A saúde vem decaindo há dois anos. Começou a ter dificulda­des de locomoção, sendo necessário o uso da cadeira de rodas. Até então, poucas vezes necessitou tomar remédios ou ficar internada. Algumas semanas atrás, no entanto, deu entrada no Hospital Bom Pastor, em Igrejinha, em razão de uma anemia. Ficou oito dias lá, chamando a atenção dos médicos e enfermei­ros, impressionados com a idade. “A mãe não dá trabalho, nunca reclama de nada, está tudo bom para ela. Sempre está de bem com a vida”, diz a filha.

As lembranças que Norma tem da mãe são positivas, rindo e sendo acolhedora com todos. “Sempre admirei a vontade dela por trabalhar, o bom humor, a felicidade”, comenta a filha. O co­ração que deseja o bem ao próximo é apontado pela filha como um dos segredos para a longevidade. Todos os dias, a senhora acorda por volta das nove horas da manhã. À noite, geralmente vai para a cama “conforme termina a novela”, como brinca o genro. Mas, ultimamente, tem pedido para ir dormir mais cedo, com o escurecer. Vergilia come pouco, mas sempre refeições simples, como o arroz, feijão e aipim.

Desde os 85 anos, a família organiza anualmente uma festa de aniversário para Vergilia. Os eventos têm direito a música ao vivo, churrasco e bolo de aniversário. A festa realizada no ano passado reuniu mais de 200 pessoas, na Sociedade 14 de Outu­bro. Conforme Norma, a maioria é de descendentes da idosa. Neste ano, não farão o encontro, pois temem pelo bem-estar da centenária.

Norma é quem ajuda com as refeições, os banhos, trocas de roupas e outras funções da mãe, que apesar de estar com dificul­dades para ouvir, mantém boa memória e lucidez. Quando a filha brinca, tocando o braço da matriarca, pedindo para ela conver­sar, Vergilia não titubeia na resposta: “Tô pensando na vida”, responde de imediato, sorrindo.

Festa de 107 anos na companhia dos filhos. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Única irmã viva de Vergilia quando completou 100 anos. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal